quarta-feira, 31 de julho de 2013

O INÍQUO

Oitenta anos tinha Moisés quando subiu ao Sinai pela segunda vez para o reencontro com Deus. 
Após sua primeira ida ao Sinai, quando por lá demorou 40 dias, o povo reunido a sua espera, julgando-o morto, derreteu as jóias e fizeram um boi de ouro, e passando a adorá-lo, assim como faziam ao Deus Ápis, no Egito.
Deus após a “Farra do Boi de Ouro” resolveu acrescentar mais cinco aos dez, tradicionalmente conhecidos.
Alquebrado pelos anos, e pelo jejum, (assim como na primeira ida, por lá permaneceu sem comer) na descida do íngreme caminho, escorrega, e uma das três pedras espatifa-se. Sim eram três as tábuas da lei, com cinco mandamentos em cada, e não duas como conta a História oficial, pois cinco mandamentos foram acrescentados aos originais, diante da mais espetacular esbórnia que aqueles idos tempos conheceram.
Árduo foi o regresso do ancião, equilibrando-se com uma pedra em cada mão, e a terceira em dezenas de pedaços cuidadosamente recolhidos na túnica enrolada à guisa de mochila.
Colocada ordem na casa, procura Moisés por Leví, individuo conhecido  por todos por sua habilidade em esculpir as pedras e que atendia também pelo apelido de “O Iníquo” graças aos seus pendores pelo vinho e mulheres. Enfim, artesão do cinzel e dos vícios, que fazia por justa e merecida alcunha.
Foram encontrá-lo dias após, bem para o norte, lá pelas bandas do Oasis de Palmira, na tenda e nos braços morenos de bela Madianita, de grandes olhos cor de azeitona e grosso aro de ouro fincado no nariz.
Com ela havia se refugiado assim que a matança dos vinte e três mil começara a mando de Moisés, para castigar os que haviam participado da “Farra do Boi de Ouro”.
Sob protesto e jugo de três robustos mensageiros, Leví é levado ao patriarca que o esperava a frente de sua tenda de peles negras de cabra, com sua costumeira cara de poucos amigos e pesada sacola de pele de carneiro."Sujeito de mal com a vida, pensa entre os vapores do álcool o Iníquo. É o que dá falar tanto com Deus. Acaba por copiar-se-lhe os trejeitos..."
Frente ao líder tenta aprumar-se, mas seu estado é deplorável. De cara amarrotada, olhos remelentos, cabelos desgrenhados, lábios borrados de carmim onde ainda ardiam os beijos pagãos, a túnica imunda, exibindo manchas de diversas cores e procedências, e exalando uma mistura de repugnantes odores, onde sobressaíam o álcool das fermentadas e legítimas uvas de Sharon, o Aloé com seu cheiro de sepulcro e um esmagador “bodum” de suor que aos outros engolia...
Leví oscila em torno de um eixo imaginário, enquanto o vento fresco do deserto, àquela altura do ano, lembra-lhe o roçar delicado das mãos madianitas a que se entregara nos últimos dias. Na verdade, aguardara a chegada dos vingadores com uma certeza que nem todo o vinho do mundo afogaria, pois desde que a matança dos infiéis da apostasia do bezerro de ouro começara, sabia que sua hora chegaria, já que inclemente era o braço do Deus de Moisés.
E não adiantaria argumentar que entrara na farra por ceder aos apelos de sua natureza, e que não poderia crer ou amar um Deus incapaz de relevar suas fraquezas, de aceitá-lo como um simples homem amante da alegria, das músicas, do vinho e acima de tudo das mulheres. Ah... as mulheres. Nelas sim esse Deus tão raivoso mostrara sua natureza Divina. Talvez num dia inspirado pelo vinho de Sharon que o fizera esquecer-se das suas obrigações de Deus, e que não entendia porque o obrigava a ser tão sanguinário quanto Astarte, Moloc ou qualquer um dos muitos que conheceu no Egito. Melhor acabar tudo ali mesmo...
- Leví. E a voz de Moisés soou estranhamente amiga, fazendo-o abrir os olhos para certificar-se que era o patriarca e não os “espíritos do vinho” que lhes falavam aos ouvidos de dentro para fora.
- Leví, mandei buscar-te por que preciso de sua habilidade no trato com as pedras. Dou-te importante missão em troca de sua vida miserável. 
Nesta sacola estão os cinco mandamentos que o Senhor acrescentou em minha segunda subida ao Sinai. Não me foi dado tempo de lê-los tal a pressa em retornar, diante dos fatos acontecidos na minha ausência anterior. Por azar ou castigo, caiu-se-me a pedra e com ela espatifou-se o conteúdo. Recomponha a sua forma original e restitua-me o que nela está escrito, para que eu possa fazer cumprir-se a vontade do Senhor, e darei por esquecidas todas as suas iniquidades, tornando-te agradável ante aos olhos de Deus.
Um compenetrado Leví retira-se da presença do patriarca carregando a sacola com os fragmentos da pedra sagrada, onde o Senhor de próprio punho escrevera, e por um bom par de dias não “deu as caras” pelo acampamento, enfurnado em seu “cafifo” a dedicar-se a mais importante das encomendas que recebera em toda sua iníqua vida.
Recomposta a pedra, profunda tristeza toma conta de Leví. Dessa vez o Senhor “radicalizara geral”. Que graça teria a vida a partir daquele momento? Qualquer deslize e a morte era certa. Mas sua vida era feita de deslizes...
Cumprida a tarefa, comparece Leví à tenda de Moisés. Impecável, em colorida túnica nova, barbeado e recendendo exageradamente a perfumes raros, como é comum aos desacostumados ao uso.
Moisés sorridente, de longas barbas e cabelos brancos, lembrava Papai Noel e não o austero e carrancudo Homem de Deus que sempre fora.
Recebe do iníquo a pedra trabalhada, e numa primeira e geral inspeção aprova-a em largo sorriso de dentes surpreendentemente fortes e bonitos para a idade, ostentados de orelha a orelha. À medida que “corre” os olhos pelos parágrafos, sua expressão começa a mudar inquietando Leví. Aos poucos, olhos na pedra, olhos no Leví, muda de bonachão a colérico, enquanto o atormentado artesão olha para os lados, disfarçando uma desatenção, quando na verdade estuda o caminho mais curto para uma possível fuga que adivinha iminente.
Olhos arregalados, suando por todos os poros, com lábios trêmulos, rosto rubro, prestes a explodir em cólera sanguinária, constata o Patriarca toda a perícia e safadeza do Iníquo.Lá estavam gravados em baixo relevo, com a caligrafia irretocável de Deus, os cinco parágrafos tão ansiosamente esperados, mas seguramente não os originais, tamanha a permissividade do texto. 
E ainda por cima tivera o “topete” de assinar J H V H, o nome impronunciável de Deus!
A multidão que aguardava o desenrolar deste encontro, quando finalmente Leví, o Iníquo, tornar-se-ia um discípulo do Senhor, viram-no irromper porta afora, em desabalada correria, que provocaria inveja ao mais rápido atleta grego, de túnica arregaçada acima dos joelhos, para assim correr melhor, seguido de perto, em vôo rasante, por brilhante basalto negro, que por pouco não lhe acerta a nuca, deitando-lhe os miolos ao sol, não fosse a ginga rápida com que o salafrário desviou-se da rota de colisão, e além dos limites do acampamento, tomar o rumo do norte, onde braços morenos e carinhosos certamente o aguardavam.
Não se sabe por que Moisés desistiu de castigar o Iníquo, contentando-se em considerá-lo excluído do Povo de Deus, nem se retornou ao Sinai. Sabe-se apenas dos 10 conhecidos mandamentos.
Poupou-nos assim Leví, o Iníquo, quer por inspiração de gênio com visão histórica, ou simples espertalhão agindo em causa própria, de aturarmos mais cinco proibições, que se não nos tornou mais fácil o caminho ao Paraíso, seguramente facilitou-nos a vida, preservando-nos algumas alegrias.

Salvador, Fevereiro de 2011
Sávio Drumond


quarta-feira, 17 de julho de 2013

UTI

Em 1854, durante a Guerra da Crimeia, na qual o Reino Unido, França e Turquia lutaram contra a Rússia, a Enfermeira Florence Nightingale, objetivando dar assistência aos feridos, criou a 1ª sala destinada à esta finalidade.
Com a 1ª (1914-1918), e a 2ª (1936-1945) Guerras Mundiais, as salas de suporte à vida, equiparam-se com a descoberta de novas medicações e novos equipamentos.
Incrível, mas a tecnologia médica evolui muito mais em períodos de conflitos.
A ultra-sonografia, só foi entregue à Comunidade Científica, 10 anos após sua descoberta, pois era “Segredo Militar”, utilizada na identificação e comunicação dos satélites espaciais, pois a URSS não “podia saber". Com Monitores Cardíacos, que vigiam a frequência e o ritmo cardíaco, disparando alarmes sonoros, conforme alterações da frequência e ritmo do coração, Oxímetros Digitais que informam “24 horas por dia”, a quantidade de O2, no sangue do paciente, sondas que medem a pressão dentro dos vasos e coração, aparelhos que fazem a medida de O2, CO2 e eletrólitos, permitindo suas correções, medida da Pressão Venosa Central (P.V.C.), indispensável para o tratamento da Síndrome do Choque, muitos doentes conseguiram “enganar” a morte e viver por mais tempo.
Muitos corações, devido ao uso de Marcas-Passos, continuam a bater em tórax de indivíduos mortos.  Substâncias que, se injetadas em tempo hábil em Coronárias no Infarto Agudo do Miocárdio, Carótidas nos Acidentes Vasculares Cerebrais (A.V.Cs. / Derrames), Artérias Pulmonares nos Tromboembolismos Pulmonares, Artérias Mesentéricas em Infartos Intestinais,desfazem coágulos, e muitos indivíduos seguramente sobrevivem, em situações limites, que antigamente os matariam. 
A assistência intensiva a pacientes nestas salas internados, deu origem a novas especializações como o Médico Intensivista, a Enfermeira Intensivista e o Fisioterapeuta  Geral e Respiratório, para evitar lesões de Traqueia e em doentes entubados e Escaras de Decúbito e Pneumonia de Decúbito naqueles acamados por muito tempo.Que ironia, e ainda se morre de Apendicite, Diarreia, Desidratação, Tuberculose, de parto e todas as doenças relacionadas à miséria.
Até a Bíblica Lepra, está voltando com “toda força”, na Amazônia.
Na U.T.I. do H.G.V. (Hospital Getúlio Vargas), o Pronto Socorro, quando estudante, vivi situações que gostaria de esquecer.
Um professor nosso, Anestesiologista, era chefe da U.T.I.
 Embora nunca tivesse sido interno desta Unidade, costumava visitá-la com frequência, não só para aprender alguma coisa, como acompanhando os doentes que atendia na Emergência, e a ela os encaminhava.
Certa feita, levei um doente em Coma, vítima de acidente automobilístico.
Após minucioso exame, o Mestre reconheceu que o doente precisava de U.T.I.  e assistência respiratória, pois o tínhamos entubado na sala de Emergência, e a ventilação pulmonar, mantida manualmente.
Após perguntar ao residente (estava atendendo juntamente conosco na sala de Emergência), quem não “tinha mais jeito”, e que estava ocupando um respirador,examinou o prontuário e minuciosamente o doente, e quando os reflexos mais profundos, como o Corneal  já não mais existiam, fazia aquilo que todos nós queríamos fazer, mas que não tínhamos coragem: Desligava o Respirador!
Depois, após breve silêncio, quando parecia que rezava, mandava subir mais dois, pois iria desligar mais dois outros aparelhos, pois dois moribundos, estavam ocupando respiradores que poderiam salvar outros infelizes que tinham chance de viver.
Graças a maus políticos e más políticas, o Mestre se investia de Deus, decidindo quem viveria e morreria.
Será que a situação mudou?                                                                                                                                   Salvador, 01 de Maio de 2012
                                                                                                                                             Sávio Drummond.

Nota: O conto escrito em 2012, refere a situações ocorridas na década de 1970.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

PEROBA

Apelido carinhoso com que um colega médico, que trabalhou no Serviço Médico de Candeias referia-se a Petrobrás, empresa em que trabalhei por muitos anos, como Médico do Trabalho.
Influenciado pela descoberta de Gás e Petróleo na vizinha Bolívia, o Advogado e escritor paulista, principalmente de literatura infantil, Monteiro Lobato (1882-1948), lança em 1936 a campanha "O Petróleo é Nosso".
Nela acusa o então Presidente- Ditador, Getúlio Vargas (1882-1954) de “Não perfurar e não deixar perfurar”, baseado em pareceres de geólogos americanos, de que no Brasil não havia petróleo. Esta oposição lhe “valeu” 6 meses de cadeia.
Em 3 de Outubro  de 1953, enfim,  o Presidente gaúcho Getúlio Dorneles Vargas (1882-1954), funda a PETROBRÁS ( Empresa Brasileira de Petróleo S.A.), empresa de economia mista, cujo maior acionista é o governo, inaugurando também o Monopólio de Petróleo.
Nestes 59 anos a Petrobrás evoluiu muito. Dos iniciais 1,9% do petróleo consumido, até 90% em 2003 e por fim a auto- suficiência com 1.800.000 barris/dia e 6.000.000 m³/dia de gás natural, no governo Lula.
Em 1961 entra em operação a 1ª Plataforma Marítima Continental (área de até 200 metros de profundidade que orla o continente.
Após ela as profundidades abissais), e a auto-suficiência de derivados é alcançada, graças à inauguração da Refinaria Duque de Caxias, no RJ.
Em 1967 é criada a Petroquisa S.A. (Petrobrás Química S.A.), subsidiária da Petrobrás que fabrica plásticos duros, flexíveis, espuma e fertilizantes.
Em 1968 é criado o CENPES (Centro de Pesquisas e Desenvolvimento), maior centro de pesquisas da América Latina, e que gera o maior número de patentes do mundo! Em 1969 foi feita a 1ª descoberta de petróleo no mar, no campo de Guaricema, há 80 metros de profundidade, em Sergipe.
Em 1997 acabou o Monopólio do Petróleo, mas as grandes empresas estrangeiras, não passaram a explorar e produzir em grande volume, tal a atuação da empresa nacional. Gigantes como a Esso, Shell e Texaco, continuam trabalhando com combustível
importado, ou comprado da Petrobrás, em sua maior parte.
A Petrobrás é líder mundial em exploração em águas profundas, recorde batido no Campo do Roncador, na bacia de Campos, com lâmina d’água de 1886 metros.As maiores jazidas marítimas estão na Bacia de Campos e as terrestres no município de Mossoró, no Rio Grande do Norte.
Com o desenvolvimento do Pré-Sal , seremos o  4º produtor mundial de petróleo até 2030.
Hoje a Petrobrás tem 100 Plataformas de Produção, 16 Refinarias e uma frota de 5 navios na subsidiária Transpetro. Outros 49 serão adicionados a frota em breve. 
Com a descoberta de petróleo em Lobato (atual subúrbio ferroviário), a recém criada Petrobrás, “saía “com caminhões recrutando trabalhadores.Times inteiros de baba (futebol de várzea) foram fichados, muitos só de calção e chuteiras.
Anos depois, inúmeros Chagásicos, começaram a apresentar sintomas.Um “crioulinho”, com capacete de segurança, e farda da Petrobrás, cuja logomarca era um retângulo verde e amarelo com o nome da empresa, chamado de Pretobrás, virou garoto propaganda na época da T.V. preto e branco.
Até música foi criada; “Sai daqui maloqueiro, minha filha só namora petroleiro”.
Dizia-se na época que todo petroleiro é bom de trabalho, comida e “mulé”.
Um antigo petroleiro costumava ser retirado dos braços da amada no “brega” de Candeias, para “pegar no trampo”. Os que trabalhavam no campo, quando chegavam os tonéis, cheios de feijão com chouriço e carne do sertão, e outro de arroz (hoje são servidas quentinhas, feitas e distribuídas por empresas terceirizadas), o petroleiro tirava a “carneira” (armação de plástico, regulável conforme o tamanho da cabeça do usuário, dentro do capacete de segurança), mergulhava o capacete no tonel de feijão, depois no de arroz, “metia” farinha e pimenta e comia tudo.
Dizem que a Igrejinha de Candeias, em agradecimento, foi construída no alto de uma colina olhando para os campos da Petrobrás e não para a cidade.
No Natal um petroleiro levou um peru, como presente para seu chefe, um Engenheiro do Petróleo. Como ele não estava em casa, deixou o peru no jardim, e pendurou no pescoço da ave seu crachá, para que ele soubesse o nome do bajulador.
Logo a notícia se espalhou e ele foi apelidado de Peru de Crachá! Outro petroleiro tinha tido varias mulheres e filhos com todas. Não pagava as Pensões  Judiciais que devia a todas elas. 
A Assistente Social conseguiu convencê-lo que devia fazê-lo, ou poderia ser preso, pois todas deram queixas do salafrário.
Quando se aposentou abriu um bar na beira da estrada de Candeias, frequentado pelos petroleiros da “ativa” e aposentados. Colocou o nome de Bar P.J.

Salvador, 11 de janeiro de 2012.                                                                     Sávio Drummond.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

CAPOEIRA

Os antigos coronéis gostavam de reunir seus escravos, no terreiro da casa grande, após o jantar, e sob a luz de archotes, “vê-los” cantar e dançar os ritmos e músicas africanas.
O Samba Duro, a Umbigada, o Maculelê, jogado apenas com as madeiras chamadas “grimas”, a Puxada de Rede e principalmente a Capoeira.
Toda a família assistia, sob luz de archotes, os negros dançarem essa mistura de dança e arte marcial.
 Criada no Recôncavo segundo alguns pesquisadores, recebeu o nome de Capoeira, que era como chamavam a vegetação que cercava as áreas de Caatinga, e aonde os negros fugidos se escondiam dos perseguidores.
A Capoeira de Angola  por ter sido criada pelos escravos vindos de Angola, recebeu esse nome. Os seus praticantes eram chamados de Angolanos. Tocada pelo Berimbau, feito com uma dura madeira da árvore Biriba (que deu o nome ao instrumento) recurvado como um arco. Para tal, a madeira era presa no solo por fortes grampos e molhada todo dia e deixada secar ao sol, até adquirir a forma desejada. Um fio de metal, percutido com uma vareta de madeira, tendo uma cabaça como caixa de ressonância, que modulava o som ao ser apertado contra a barriga do tocador,  pequenos tambores e um chocalho de palha trançada, com pequenas sementes no seu interior, como um guizo, chamado de Caxixi, passou a ser o principal instrumento musical da luta-dança. Este instrumento, contrário ao que normalmente se acredita, só foi introduzido ao jogo da Capoeira, no final da década de 30 do século passado.
Todavia, o Bedel da Faculdade de Medicina, Manuel Quirino, contemporâneo de Nina Rodrigues registra o uso do Berimbau no jogo da Capoeira em seu livro A Bahia de Outrora de 1916.
Como mostram os desenhos de Rugendas e Debret (Viagem Pitoresca através do Brasil de 1763), o Berimbau era usado inicialmente pelos vendedores ambulantes e cegos, que chamavam a atenção ao tocá-lo, para assim vender seus produtos ou pedir esmolas. A tensão do fio metálico variava, ao se comprimir a corda com um dobrão de cobre, moeda da época.
Os negros, com acompanhamento de voz dos que assistiam, palmas, pequenos tambores que ficavam seguros em um “sovaco” e percutido com a outra mão, abano de palha que era batido contra um porrão de barro, dando um som grave que lembra o surdo, reco-reco, instrumento feito com um gomo de cana com cortes, friccionados com uma vareta de metal e pandeiros, na verdade estavam se exercitando e ensinando aos outros uma eficiente luta que, disfarçada de dança, era aceita e incentivada por seus senhores. 
Na primeira oportunidade, fugiam para os núcleos de resistência, chamados de Quilombos.(Emília Biancardi Ferreira, Folclorista, Professora de música em Raízes Musicais da Bahia, 2006). 
Seus habitantes eram conhecidos como Quilombolas. Ficaram famosos os Quilombos de Maracangalha, no atual município de S. Sebastião do Passé, Arco Zêlo no Rio, onde 300 escravos fugidos e liderados por Manuel Congo que o fundou em 1838, e o mais famoso de todos, o de Palmares, chefiado pelo alagoano Zumbi, filho de reis africanos feitos escravos, e trazidos para o Brasil.
Os Quilombos não eram apenas núcleos de resistência formados por negros fugidos. Neles muitos brancos abolicionistas, criminosos comuns ou políticos perseguidos, procuraram refúgio.

A Puxada de Rede, com seus cantos dolentes, deixou muitas saudades. “O Mestre” solava, e os puxadores repetiam o refrão, ao mesmo tempo em que puxavam a rede, sob a marcação de pequeno tambor, enquanto cantavam:
No mar, no mar, no mar.
No mar eu vi cantar,
No mar, no mar, no mar, minha sereia,
Ela é sereiááá...

Menina do peito duro,
É duro de natureza,
Queria ser criança,
Prá mamá nessa beleza.

No mar, no mar, no mar,
No mar eu vi cantá.
No mar, no mar, no mar minha sereia,
Ela é sereiááá...
  
Quem tivé sua fia moça,
Não deixe apanhá café,
Quando sai ela é moça,
Quando vorta é muié.

No mar, no mar, no mar,
No mar, eu vi cantar,
No mar, no mar, no mar, minha sereia,
Ela é sereiááá... 

Menina por Deus eu juro,
Eu juro e torno a jurar,
No colo que eu dormir,
não deixa outro se deitá.


Ficou famoso o capoeirista de Santo Amaro chamado Besouro.Contam que Besouro, fugindo da polícia, viu-se encurralado. Então, como Jesus, colocou-se de braços abertos em um cruzeiro. O regimento detonou os fuzis, como em um fuzilamento. Nenhuma bala o atingiu, que escapuliu para o mato enquanto os soldados recarregavam as armas.
Os “angolanos” alforriados costumavam jogar a capoeira em praça pública em troca de dinheiro recolhidos em um chapéu.
Os capoeiristas de Angola tinham um “uniforme”. Terno de linho branco, lenço de seda enrolados no pescoço e descalços. Com isso queriam mostrar que ao fim da luta estavam cobertos de suor, com as palmas dos pés e mãos encardidas, mostrando, que elas foram as únicas partes do corpo que entraram em contato com o chão. Se qualquer outra parte tocasse o solo, sujaria o terno. O lenço de seda no pescoço era para proteger este ponto vital, pois a navalha, arma usada pelos capoeiristas, de um só golpe não corta a seda. As academias de capoeira usavam lenços de cores variadas, conforme a graduação do aluno.
Os angolanos costumavam pular os muros dos cemitérios para roubar ossos humanos, e com eles esculpir punhais. Diziam que se o “cabra” não morresse do ferimento, pegaria uma gangrena...Explica-se: os ossos humanos, por terem material orgânico em decomposição, e por estarem enterrados, são ricos em esporos do tétano. Este ferimento geralmente originava a doença fatal.
Dom Pedro II, o amante das artes, poesia e botânica,  acabou proibindo a acapoeira e mandando prender os capoeiristas.
As cadeias da Bahia estavam cheias de capoeiristas, quando estourou a guerra do Paraguai (1864 a 1870). 
A imperatriz Isabel, que herdara a Coroa de seu pai, mandou todos para frente de batalha em troca da alforria, se retornassem.
A liberdade oficial só aconteceria em 1888.
O Brasil foi o último país do mundo a acabar com a escravidão.
A Capoeira Regional foi criada na década de 30 do século passado por Mestre Pastinha, crioulo alto, magro, casado com uma baiana de acarajé. Policial e amante da capoeira de Angola “pegou” seus golpes e a eles acrescentou golpes de luta livre, tornando-a mais agressiva e eficiente.
Nascia a Capoeira Regional.

                                                                                                                 Salvador, 04 de Março de 2013.

Sávio Drummond.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

OLHA O PÃO!

No interior do Recôncavo, protegido dos fortes ventos e ondas do Atlântico, fica a vila de São Tomé de Paripe.
No alto do mais elevado dos morros, fica a Igreja de São Tomé, construída pelos padres e índios, em 1627, e antigo cemitério ao lado.
Como as pessoas eram frequentemente enterradas enroladas em rede (costume indígena), e em covas rasas, as chuvaradas acabavam expondo os ossos. Espetáculo belo e tétrico: brancos crânios e ossos longos como fêmures, tíbias e úmeros, brilhavam ao sol.
São Tomé era antiga aldeia de índios Tupinambás, à beira mar, cujo chefe indígena Paripe, tinha a aldeia principal, na localidade atual de mesmo nome, há 6 Km de distância.
Todo o abastecimento da localidade era feita pelos saveiros, embarcação indiana, trazida para a Bahia de 1530 a 1560.
Esta embarcação chegou a um número de 2000, nas lutas de independência que culminaram com a expulsão das tropas do general Madeira de Melo, aqui e em Itaparica aquarteladas, em 2 de Julho de 1823.
Todo o comércio da cidade, recôncavo, até Cachoeira e São Felix era realizado pelos Saveiros, que “entravam” pelo Rio Paraguaçu.
Seus porões transportavam desde cimento, tijolos, areia para a construção das antigas mansões, a sacos de feijão, arroz, farinha, carne salgada (charque). Com a maré cheia, os saveiros paravam nas rampas, que é a forma mais fácil para transportar pesos (os sacos).
Lá só existe uma escadinha, muito apreciada pelos namorados.
Em São Tomé ficava a venda de Seu Cesáreo, espanhol  já idoso, que passava o dia atrás do balcão, com camisa de meia e lápis atrás da orelha.
No fundo, na parede, uma tabuleta que dizia: “ Fiado só para maiores de noventa acompanhado dos pais”.
Em antigo balcão, seu Cesáreo pesava em precisa Balança Filizola, o popular “agrado”, para as freguesas preferenciais, como minha mãe, que tinham até caderneta, onde as compras diárias eram anotadas e pagas no fim de semana. 
Toda meia noite saía a fornada de pães na padaria atrás da venda.
Comprávamos esse pão, que derretia a manteiga nele colocada e que tomávamos com café com leite. Nossa ceia, antes de dormir.
Diariamente, um garoto saía às 7 e às 5 da tarde, com enorme balaio na cabeça, vendendo o pão de Seu Cesáreo.
- Olha o pão!
E São Tomé inteiro comprava o pão de Seu Cesáreo para o café e jantar.
Certo dia o garoto mercava e ninguém queria comprar o pão para o jantar.
- Olha o pão!
E nada, o que exasperou o garoto.
- Olha o pão, porra!
Deram queixa a Seu Cesáreo, que demitiu o garoto.


                                                                                           
Salvador, 04 de Maio de 2013

Sávio Drummond






quarta-feira, 17 de abril de 2013

SONETO PARA DORALICE




Doralice adora a vida,
 e a vida adora ela.
Eu adoraria a minha vida,
se Doralice estivesse nela.

Quando à noite penso nela,
de saudades meu peito estala.
O vento entra pela janela,
e “cantando” meu sono embala.

 Veio como o vento,
 e sem permissão se instalou.
 No meu coração e no meu pensamento,
E sussurrando falou;

A vida me deu tudo,
 menos de Doralice, a paixão.

Por isso sigo mudo,
Sufocando meu coração.

                                                                                          Salvador, 31 de Maio de 2012.
Sávio Drummond.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

ENCANTADO


Na Cidade da Bahia, usa-se  esse termo para algumas pessoas quando morrem.
Aí  se costuma dizer “que não morreu, virou encantado”. Ao contrário dos Vampiros e Zumbis, que segundo a lenda ressuscitam, mas não têm alma, o Encantado é a própria alma, que ao aparecer assusta e passa a fazer “visagem”.
O encantado ajuda os que ficaram, mas a sua presença assombra, daí dizer-se que fazem visagem”.
Um que virou encantado foi um primo meu, que se
intitulava Irmão de Caridade Couto, vulgo Putanheiro Velho.
Qual Vadinho, no romance Dona Flôr e seus Dois Maridos, Irmão Couto, passou a ajudar os necessitados das noites baianas, ou seja,  as velhas putas e “Putanheiros “ necessitados. 
Certa feita, “Vivi, Língua de Veludo “ vinha andando rapidamente e com medo, doida para chegar no brega em que morava, pois já passava da meia noite, e nesse horário no Pelourinho, o assalto era certo. Nisso, dois marginais armados de navalhas, correram atrás dela para assaltá-la. Vivi corria e chamava por Santa Madalena, protetora das putas, mas o assalto era eminente. Quando estava para ser alcançada, Irmão Couto os derrubou com duas rápidas e certeiras  rasteira, agarrou-os pelos testículos e chamou Vivi para fazer o mesmo e levá-los para a Delegacia de Proteção ao Turista.
O Delegado e policiais plantonistas, até hoje lembram, entre risos da cena: Vivi segurando os dois homenzarrões pelos “bagos” (Irmão Couto, invisível, é que os estava triturando), e apresentando-os a autoridade policial.
Eram marginais que a polícia estava tentando prender “ de há muito”, pois tiravam a paz do Pelô à noite.
Irmão Couto virou Encantado. 
Outro parente meu, morto em um assalto, certa feita muito me ajudou.
O dia amanhecia e eu vinha do Largo da Palma, onde tinha estudado toda a noite com um colega.
Nisso um rapaz, sentado em uma cadeira de engraxate (antigamente elas ficavam acorrentadas a arvores, nas praças) pediu:
- Toque aqui, barão.
Sob o pretexto de acender um cigarro, queria que me aproximasse o suficiente, para com uma faca, certamente me roubar.
Nisso o primo morto, “do nada” apareceu ao meu lado, e com a mão no bolso do casaco, engatilhou uma arma.
O barulho de engrenagem ressoou na madrugada, e fez o provável ladrão dizer:
- Você é esperto, não tinha visto seu segurança.
O primo morto também virara Encantado...

                                                                                                              Salvador, 06 de Fevereiro de 2013.                                                      Sávio Drummond.