quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A PASSEATA

Havia alguma coisa no ar além de Alegria-Alegria, ponteio ou And I Love Her.
Eram todos rebeldes com causas, envolvidos por uma aura que os identificava com os santos missionários ao abraçarem ideais de luta e sacrifício. À ditadura militar, presos políticos, rumores de guerrilha, juntavam-se clamores irresistíveis como um elemento da natureza, que os transformavam em pioneiros de um mundo novo, cheio de liberdade no relacionar-se, no jeito de ser e vestir, para desespero dos pais.
Eram dez horas da manhã e os secundaristas em peso reuniam-se às portas do Colégio da Bahia.
A invasão da Residência Universitária dias antes, e do próprio colégio na noite anterior, tinham sido “a gota d’água”. Os líderes estudantis discursavam em cima de palanques improvisados e estudantes vindos de todos os cantos da cidade reuniam-se ali, como se todos os caminhos pra lá se dirigissem.
Em pouco tempo a avenida estava coalhada de uniformes azul e branco e faixas de protesto.
Compacta, a multidão deslocava-se em direção à Piedade, e ele, que não era hippie nem revolucionário, estava lá. Mais um entre milhares, único perto dela. Que lhe importava a guerra do Vietnã, as botas dos generais, os colegas desaparecidos, se naquele momento ela estava tão
próxima?  Se o cheiro dos seus cabelos e do suor do seu corpo agitado era o único perfume que sentia, e se sua voz, já rouca e esganiçada era a única que conseguia ouvir e parecia-lhe o último som que ouviria por toda a vida? Seguiria-a até o inferno se preciso fosse! 
De repente a empolgação foi substituída pelo medo. Nas extremidades da avenida, os uniformes azuis e brancos confundiam-se com o cáqui e o verde-oliva da Polícia e do Exército.
Os estudantes apanhados na armadilha tentavam furar o cerco numa agitação desenfreada, como de uma cobra em estertores por ter a cabeça esmagada. Alguns fugiam pelas ruas laterais, para caírem direto nos camburões da Polícia e do Exército que estrategicamente fechavam todas as saídas.
Foi aí que ela abraçou-se a ele e reclinou a cabeça no seu ombro.
Sentiu-a trêmula e suas lágrimas molharam seu peito, onde um coração valente e indomável despertou. Por ela derrubaria todos os soldados, esmagaria todos os blindados e hastearia no mais alto dos prédios, sua bandeira. Nela não haveria dizeres patrióticos ou palavras de ordem. Ler-se-ia apenas TE AMO, como poderia alucinadamente amar um coração de dezessete anos. E aí, talvez, um fotógrafo amador registrasse seu gesto, como o da bandeira americana em Iwo Jima.
Gritos pavorosos, e o estalar de ferraduras nos paralelepípedos, trouxeram-no bruscamente à realidade, e ela pareceu-lhe sólida como um muro. Aos galopes, alguns policiais aproximavam-se rapidamente como se, em meio aquele alvoroço, tivessem sido os escolhidos.Talvez por estarem parados e abraçados, enquanto “o mundo vinha abaixo” ao redor. 
Quando iam ser atingidos, lembrou-se (Deus ajuda as crianças, os bêbados e os apaixonados), da alfaiataria de um amigo da família que ficava naquele trecho e que pelos fundos dava acesso às ruas de trás. Num ímpeto arrastou-a colada ao corpo e invadiram a loja, derrubando os manequins da entrada. 
Logo chegaram à rua dos fundos, onde o movimento era menor, mas ainda havia policiais montados. Um velho ditado diz que “Cavalo não desce escada”, e por certo, não desceriam as ladeiras de “cabeças de negro” da Bahia. 
Dito e feito. Ao chegarem ao meio da ladeira, olharam para trás e viram os cavaleiros assustados, que não conseguiam manter o controle de suas montarias, no alto do declive.
Continuaram calados e colados até a casa dela. Lá, choraram como crianças e amaram-se como adultos.
Seguramente havia alguma coisa no ar, além do som de Caetano, Edu Lobo e Beatles, naqueles tempos. 

Salvador,  26 de Junho de 1995
Sávio Drummond

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O BAIXINHO

Tive um colega na Faculdade, que por ser de baixa estatura, chamava-o de “Baixinho”, quando sempre me respondia; “Baixinho é seu salário”. 
Sempre bem humorado,  inúmeras vezes surpreendeu-me com suas “tiradas”:
- Baixinho, estou preocupado pois estou perdendo os cabelos.
-Também estava com esse problema, mas o resolvi.
- Diga-me o que você fez. Enquanto ainda tenho cabelos!
- Depois que arrumei uma caixinha, comecei a guardá-los. Caiu, guardei! Nunca mais perdi nenhum.
Espírita, mora com o médium Divaldo Franco, e é “Um Tio”, no interessante sistema de creche-escola, que Divaldo criou.
Os meninos são criados e educados por um“ Tio”, as meninas por uma“ Tia”.
O convívio, “do dia a dia” é feito em comum, e as refeições na chamada Casa Grande são anunciadas por um sino.
Daí o bem-humorado “Baixinho” dizer que fora das refeições, poder ser encontrado na Senzala, e me deu seu telefone, que nunca atendeu, mas deu!
A atual creche-escola, já foi orfanato, tendo Divaldo criado centenas de crianças.
Aos poucos descobriu que as crianças que adotava tinham pais vivos. Eram “órfãos sociais”. 
O orfanato da Mansão do Caminho deixou de ser orfanato, e passou a ser creche, escola, padaria e tipografia.
Nelas os habitantes do fim de linha de Pau da Lima e adjacências, aprendem uma profissão. Tenho certeza que a escolarização, as boas companhias dos frequentadores da Mansão, e o aprendizado de um ofício, afastaram inúmeros jovens das drogas e da marginalidade.
Certa feita, quando dávamos plantão em um Posto de Saúde no subúrbio, ajudei-o na retirada de um osso de galinha que um rapaz engolira. 
A “bendita” estrutura óssea do esqueleto do galináceo (falar difícil às vezes, nos faz sentir importante), percorreu todo o intestino e próximo ao anus “resolveu” atravessar e prender-se nas paredes do reto. O "Baixinho" tentava com uma pinça reta, “pescar “o corpo estranho.
- Aí Doutor, aí mesmo, logo na entrada! 
- Pensei que fosse saída, enquanto mostrava o osso ao rapaz, que o guardou como a um troféu.
Um dia levei-o ao bairro de Monte Serrat, próximo a Ribeira, na Cidade Baixa, para ver o tio de minha esposa que estava com câncer. De repente começou a bocejar o que não seria nenhuma novidade, se eu também não começasse a sentir um sono incontrolável. 
Com muita dificuldade chegamos até A Mansão, onde um médium, através de um passe nos repôs as energias.
Tratava-se do fenômeno chamado de Vampirismo. Nele, espíritos protetores do enfermo retiram energia das pessoas susceptíveis e doa aos doentes, em uma verdadeira transfusão, mecanismo que ocorre no passe Espírita.
Nele espíritos protetores do Médium doam a ele, energia, senão só conseguiria dar passe uma vez.
Descobri esse fenômeno quando atendia alguns doentes, que após a consulta sentiam-se bem melhor, e eu chegava em casa “ me arrastando”, tomava uma vitamina e dormia profundamente.
Durante o sono essas energias eram repostas, pelos meus guardiões, e acordava bem.
Passei a identificá-los e atendê-los por último, sob a justificativa de que eram casos especiais e que necessitavam de uma atenção particular.
Certa feita trouxe vários rapazes, da Mansão, pra almoçarem aqui em casa. Minha esposa esmerou-se e fez uma “senhora” feijoada.
Enquanto comíamos, um deles reclamou com seu companheiro do lado:
- Tá magra! Tá magra!
Queria dizer que tinha pouco toucinho... 

Excelente orador,  substituia (ele e outros, como o nosso também colega, Peixinho) Divaldo nas palestras. Certa feita, em uma palestra, narrou para um auditório repleto, um sonho que minha esposa teve e lhe contou: “Uma amiga sonhou que estava em um grande corredor. Ao longe um quadro na parede. Era um retrato de Jesus, com olhos piedosos.
Ela aproveitou para pedir a Jesus que a fizesse ganhar na loteria. Que ganhasse sozinha, pois estava cheia de dívidas.
A terna expressão foi substituída por uma “carranca” de ódio:
- Aqui pra você! E deu-lhe uma “senhora banana”. Como você tem coragem de me pedir dinheiro!
Seguranças botem esta mulher pra fora! E dois enormes Pit-Bulls começaram a correr atrás dela.
Por não saber por onde entrou, não sabia por onde sair. Acordou pedindo Socorro”.
A mulher foi pedir dinheiro logo a Jesus!

Conheci pessoas que enquanto você está falando, não conseguem manter os olhos abertos, e “caem no sono”. O “Baixinho”, inaugurou uma nova modalidade; Começa a dormir enquanto fala. Incrível, foi a 1º vez que vi isso!Costumava deixar muitos desenhos na cabeceira de sua cama, quando saía do plantão, pois estava sempre dormindo, pois dormir pra ele nunca foi problema.
Devia entrar para “Os Dorminhocos Anônimos”.

Salvador, 01 de Dezembro de 2011.                                                                                                                                                                 Sávio Drummond.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

OS POETAS

muitos anos, quando fiz a apresentação de um escritor sergipano, escrevi em seu livro de poesias:

Fazer poesia dói.
Dor pequenina que vem dos “ocos” da gente,
Que cresce, encorpa e pesa, até esmagar.
Poetas são aqueles que dançam com suas dores.
Quixotescas figuras que pastoreiam sonhos.
Voe poeta como as nuvens, acima das misérias do mundo,
E “chova seus versos”, sobre a aridez dos homens!

Poetas são pessoas que conseguem enxergar beleza onde ninguém vê. E acima de tudo, são aqueles que fazem poesia de suas dores. Daí dizer-se que para um poeta, ou um sambista, uma paixão desfeita origina um verso, ou um sambinha. Mas um amor que se vai, dá origem a uma poesia, ou um samba quê tocará, em todas as rádios.
Outra característica dos poetas é seu extraordinário poder de síntese.  Se você for descrever sua cidade, preencherá metade (espero) de uma folha de papel. No entanto, Carlos Drummond de Andrade fala a respeito de sua pequena Itabira (M.G.), desbastada pelas mineradoras, que plainaram seus montes:
“Itabira é apenas uma foto na parede, mas como dói! “ 

Os “Doutos” os classificam em épicos, líricos, clássicos, parnasianos...  
Os poetas “não estão nem ai”, para as classificações, que só servem mesmo para atormentar os estudantes, principalmente os vestibulandos.
Poesia é a expressão de um sentimento, é um canto de dor ou alegria do coração.

Por uma questão de educação, listei poesias de alguns conhecidos poetas, por idade. Primeiro os mais velhos:  
Luis de Camões (1525 - 1580)
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer.
É um andar solitário entre a gente.
É nunca contentar-se de contente.
É um cuidar que se ganha em se perder. 
É querer estar preso por vontade, 
É servir a quem vence o vencedor.  
É ter com quem nos mata a lealdade. 
Nos corações humanos amizade. 
Se tão contrário a si é o mesmo amor.

                                                                                                                                                                                                                              Castro Alves (1847-1871) em uma estrofe de Vozes d’África.

Deus! O Deus! Onde estás que não respondes?
Em que mundo, em que estrela Tu T’escondes
Há dois mil anos, te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...

O português Fernando Pessoa (1888 -1935), baseado em uma frase dita pelo General Romano Pompeu (106 - 48 AC), aos marinheiros que temiam ir para a batalha; “Navegar é preciso, viver não é preciso”, escreveu:
Quero para mim o espírito desta frase.
Transformada a forma casar como eu sou.
Viver não é necessário, o que é necessário é criar.
Não conto em gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande.
Ainda que para isso,
 tenha que ser o meu corpo e minha alma a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade,
Ainda que para isso tenha de perdê-la como minha.
Cada vez mais, assim penso.
Cada vez mais ponho da essência do meu sangue,
O propósito impessoal de engrandecer a pátria,
E contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo de nossa raça.

De Fernando Pessoa também é:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente,
Que chega a fingir que é dor,
A dor que deveras sente.

Do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987), separei:
                                                                                                                                                                                                                                                                                      Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido apelo do não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas
muito mais que lindas
essas ficarão.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           

Do chileno Pablo Neruda (1904 - 1973), escolhemos:


Não te quero, senão por que te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa meu coração do frio ao fogo.

Quero-te só porque a ti te quero.
Odeio-te sem fim e odiando- te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
 é não te ver e amar-te como um cego.
Talvez consuma a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor, por que te quero,
 por que te quero amor, a sangue e fogo.
                                                              
De Vinicius de Morais (1913 -1980):

São demais os perigos desta vida.
Pra quem tem paixão principalmente.
Quando uma Lua chega de repente,
E se deixa no céu como esquecida...
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer,
Aí então é preciso ter cuidado,
 Por que deve andar perto uma mulher.
                                                                         
Ainda do Poetinha, o adorável Soneto de Fidelidade:


De tudo ao meu amor serei atento.
Antes, com tanto zelo, sempre e tanto,
Que mesmo em face do maior encanto,
 Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento,
E em teu louvor hei de espalhar meu canto.
E rir meu riso e derramar meu pranto,
Ao teu pesar ou teu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure,
 Quem sabe a morte, angústia de quem vive.
Ou a solidão, fim de quem ama.
Eu possa me dizer do amor que tive;
Que não seja eterno posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto dure.

De um poeta desconhecido (um tal de Sávio Drummond), anotei Semiologia* do Amor. * Semiologia - Sinais e sintomas que caracterizam o quadro clínico das doenças.

Tenho tonturas.
Talvez sejam da idade.
A cabeça nas alturas, sem a identidade
Do caminho em que vago.
Vira-lata da vida, que não me fez afago.
Tenho tremores.
De uma febre esquisita,
Que queima, mas não esturrica.
Prolongando o sofrimento,
 De penitente em juramento.
Tenho suores.
Gelados, quentes, alternados.
Da alma nascentes, enviados.
Que me encharcam a pele crestada,
E se misturam as lágrimas derramadas.
Tenho medos.
Vejo sombras atrás da porta.
 De amores proibidos, numa vida quase morta.
 Ferida a caco de vidro, que sangra desatada,
Mais teima em respirar, qual chama açoitada.
Tenho dores.
No peito, na alma que me ofendem.
Semiologia de amor?
Mas também pode ser dengue.

Os poetas populares deixaram nos Cordéis todo seu lirismo. Patativa do Assaré e Catulo da Paixão Cearense são seus maiores representantes. De Catulo da Paixão Cearense:

  A razão por que nasce roxa a flor do Maracujá. 

Maracujá já foi branco,
 Eu posso inté lhe ajurá.
Mais branco que caridade,
Mais branco que o luá.
Quando a frô brotava nele.
Lá pros cunfim do sertão.
 Maracujá parecia,
Um ninho de argodão.
Mas um dia, há muito tempo.
Num mêis que inté num me alembro.
 Se foi Maio, se foi Junho,
Se foi Janeiro ou Dezembro.
Nosso sinhô Jesus Cristo
Foi condenado a morrer.
Na cruis, crucificado.
Longe daqui como quê.
Pregaro Cristo a martelo,
E ao vê tamanha crueza,
A natureza inteirinha,
Pois-se a chorá de tristeza.
Chorava os campu,
As foia, as ribera.
Sabiá também chorava,
Nos gaio da laranjera. 
E havia junto da cruís.
Um pé de maracujá,
Carregadinho de frô,
Aos pés de nosso Sinhô.
E o sangue de Jesus Cristo,
Sangue pisado de dô.
Nos pé do maracujá,
Tingia todas as frô.
Eis aqui seu môço,
 A estória que eu vi contá.
A razão por que nasce roxa,
A frô do maracujá.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             .      
Salvador, 03 de Novembro de 2011. 
Sávio Drummond

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

QUANDO A LUZ SE APAGA...

- Boa noite, querido.
-Boa noite, mamãe.
A jovem mamãe despede-se do filho, que acaba de colocar na cama, para uma boa noite de sono.
O quarto da criança iluminado fracamente pela luz do aquário “cai” na penumbra.
- Psiu...
Um grosso dicionário desperta-o e solicita: 
- Mimoseie-me com um ósculo antes dos folguedos, pois não posso locomover-me.
O trenzinho elétrico, como “em um passe de mágica”, começa a deslizar pelos trilhos que correm por todo o quarto.
Um boneco Falcon (mais armado que Rambo) pula da prateleira: - Podem brincar tranquilamente que eu faço a segurança.
Um batalhão de soldadinhos de chumbo, com antigos fuzis e baionetas, saiu da caixa de madeira onde ficava guardado, e marchando, deslocava-se em direção a porta, quando Falcon com enorme metralhadora na mão, cortou-lhe o caminho.- Eu já disse que a segurança é minha responsabilidade!
Um palhaço de pano com enchimento de espuma pulou da cadeira onde estava “adormecido”: 
- Calma “a noite é uma criança”, e todos poderão fazer a segurança do recinto e dos presen-te-tes.
O xilofone começou a tocar sozinho. “Uma baqueta invisível percutia as chapas de aço, que tangiam e tocavam;” Era uma casa muito engraçada, não tinha porta, não tinha nada”...
Um Móbile do Sistema Solar, armado sobre sua cama começou a girar. Todos os planetas, inclusive o “rebaixado” Plutão, giravam em torno do Sol, que iluminou e aqueceu todo o quarto  insuportavelmente.
A criança pensou em um Sol poente, e imediatamente o Sol avermelhou-se e baixou para perto do horizonte. Eram 17 hs.Com o pensamento viramos Deus. Uma luz misteriosa iluminou pequeno Presépio de barro, que estava na prateleira do armário, e o Xilofone começou a tocar Noite Feliz. Que estranho, ainda estamos em Abril!
 Um porquinho mealheiro, tilintando as moedas do seu interior, veio pra perto do presépio. Todos os personagens do quarto de brinquedos, inclusive o cachorrinho e a vaquinha de pelúcia, vieram acomodar-se em volta do Presépio. Os peixinhos do aquário nadaram para o lado voltado para a manjedoura e até o valente Falcon e os soldadinhos de chumbo, largaram as armas, para respeitosa e silenciosamente velarem o sono da criança que acabara de nascer.  A mãe da criança, que pensara ouvir a música do Xilofone abriu a porta do quarto do menino repentinamente. 
Tudo estava em paz, e a criança dormia profundamente, “sonhando com os anjos”.


Sávio Drummond

O BATOM

Palavra francesa, (bàton) tem sua origem atribuída às antigas egípcias, que há 5.000 A. C. o usavam, de forma líquida, a base de Óxido de Ferro, aplicado com pincéis.
Dizem as “más línguas” que a 1º mulher a usá-lo foi Eva, que o comprou de uma cobra, e a paz dos homens (Adão e descendência masculina) foi pra “cucuia”.
A prova de que o batom teve origem no antigo Egito, é um busto de Nefertiti (E a bela chegou -1380 a 1345 A.C.), encontrado na cidade de Amarna em 1912, com os lábios pintados de carmim.
Realçando os lábios femininos, seu brilho dá uma aparência de umidade, frescor e sensualidade. A conotação sexual é inegável, chegando às prostitutas egípcias, as escolhidas pelas colegas como hábeis na felação, a pintarem os lábios de vermelho, para que fossem identificadas facilmente pelos clientes.
Se o cliente estivesse a fim de sexo oral, não ia procurar uma novinha. Escolheria a “coroa” com os lábios tingidos, que lhe atestava a habilidade.
Por sua ligação com a prostituição, o batom sofreu perseguição ao longo do tempo. Na Grécia, no século II, só as mulheres casadas o podiam usar. Na Inglaterra, o Parlamento o proibiu em 1770. Principalmente no mundo ocidental o batom sofreu discriminação. 
Moças de família não usavam batom, chegando nos E.U.A. na década de 20 a uma moça chamada Pearl Pugsley de 17 anos, ser proibida de entrar na escola pois estava usando batom. 
Inicialmente aplicado com pincéis, teve sua forma sólida definida em 1921 e na década de 30 ganhou a forma de bastão. A revista Vogue (1892) foi à grande responsável pela sua divulgação na década de 30. 
As atrizes de Hollywood apareciam maquiadas e com lábios coloridos e aos poucos sua “ligação” com a prostituição, desapareceu.
Seu preço inicialmente proibitivo as mulheres pobres, servia para identificar as mulheres mais abastadas. O poder do batom é tão grande que durante a 2º Guerra (1939 – 1945), as mulheres foram incentivadas a usarem batom “vermelhão”, nas fábricas (com a diminuição da mão de obra masculina, mulheres ocuparam seus postos nas fábricas, para a confecção de armamentos), para elevar o moral das companheiras, namoradas, noivas e esposas dos soldados que foram para a batalha.
Cinquenta por cento da indústria da beleza tem no batom seu lucro. Os cosméticos em geral, principalmente produtos para os cabelos, fazem os outros 50%.
Os batons servem para desviar a atenção de dentes não muito brancos, e graças a ele, você “de longe” identifica um “sapatão”. Ele nunca usa batom!
 E ele é terrível. Por mais que o “pulador de cerca” tenha cuidado, ele aparece nos locais menos esperados. Colarinho então tem um verdadeiro “chamariz” de batom. Caso isso aconteça contigo, não tente lavar com água e sabão. No máximo você vai transformar uma pequena marca vermelha em enorme mancha rosa. Use gelo. Esfregue uma pedra de gelo em cima, e aos poucos o batom vai passando para o gelo, até sumir. Depois é só botar pra secar. Agora, se inexplicavelmente essa marca aparecer na sua cueca. Você... “tá  f*d*d*!” 
Atualmente acessível a todas, batons de várias cores foram lançados. Um negro lembra os integrantes do grupo de rock Kiss e outro “amarelão” faz parecer que a mulher está com Hepatite. São horríveis! Mas, se a mulher for feia mesmo, não tem batom que dê jeito. No máximo será uma “baranga” com lábios de carmim. 




Salvador, 23 de Setembro de 2011

Sávio Drummond 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

VÁ TRABALHAR VAGABUNDO!

Há mais de trinta anos, passando pela Rua Chile, de carro, vi um “negão” usando uma britadeira
Debaixo de um sol nordestino de meio dia, fazia uma “malhação” que nenhuma academia de ginástica conseguiria, e suava “em bicas”.
O carro parou diante dele. Pensei comigo: “Quanto ganha um operário para fazer um trabalho destes”?
Sem protetor auricular aos 40 anos vai estar surdo. E apesar de musculoso, fruto do trabalho que realiza diariamente, estará cheio de Hérnias de Disco e Artroses diversas.
Provavelmente ganha um Salário Mínimo, enquanto um Senador  embolsa  27.700,00 Reais por mês,  somando salário e verba indenizatória e com acréscimos diversos, como verba para contratar assessores, verbas de gasolina e até material de escritório, pode passar de 100.000,00 Reais*,(fora o caixa 2 das empreiteiras), vindo dos impostos diversos que pagamos.  Se esses políticos ganham fortunas como essas é porque são legais, mas seguramente isso é IMORAL! Ao ver aquela cena não resisti, e quando o carro afastou-se (lógico), gritei:- Esse mole vai acabar! A.C.M. vem aí! Era o ano de 1978. Para meu espanto, ele ouviu e sorrindo me acenou.
O salário mínimo foi instituído por Getúlio Vargas em 1942 e teria hoje o poder aquisitivo de 1.750,00 Reais, enquanto o atual salário mínimo é de 545,00 Reais, devendo chegar a R$ 620,00  em Janeiro de 2012.Para que tenhamos uma idéia comparativa, um Dono de Engenho e escravos gastava “com seu negro” de 600 a 700,00 Reais por mês, a depender da região do país. A Lei Áurea “aconteceu” mais no papel.

As cidades, principalmente as metrópoles estão inchadas. Um centro de pessoas ricas, belas casas e apartamentos e uma periferia bem mais ampla, chamada de subúrbio (de Suburra, bairro periférico dos pobres na Roma dos Césares), geralmente cheia de barracos e favelas. Aqui em Salvador uma legião de miseráveis mora nas Palafitas: habitação frágil, de compensado e zinco, geralmente de um só cômodo, apoiada em estacas, sobre o mar, pois a “terra seca” já tem dono. Embaixo uma água imunda e fétida, pois seus habitantes não vão esperar a maré cheia para eliminar seus excrementos.
Quando estudante cuidei, no Hospital Universitário H.P.E.S. de uma Senhora residente em um desses barracos, que desabou devido à água salgada ter corroído os “pilares”, com um profundo ferimento na virilha e raiz da coxa, provocado por tocos podres de antigas estacas. Estava internada em um quarto isolado devido ao mau-cheiro que exalava.Os curativos, tínhamos de fazer de máscara, devido ao pus abundante e mal cheiroso que brotava e tirávamos da ferida. Até pedaços de casca de siri tirei do ferimento. Morreu de septicemia.
Enquanto isso um Deputado Federal ganha 12.800,00 Reais líquidos, mais 15.000,00 de verba indenizatória, mais 50.800,00 de verba de gabinete, mais 13.200,00 para despesas como Auxílio Moradia, gastos com telefone, postagem de cartas e passagens aéreas, fazendo um total de  91.800,00 Reais*, fora os dólares na cueca e Mensalões.
Os pobres e miseráveis também convivem com a fome. Um reflexo da desnutrição está no aproveitamento escolar e na criminalidade. Está provado que crianças que se desenvolvem em ventres de mães desnutridas apresentam um Q.I. menor do que crianças  que nascem de mães bem alimentadas. Aquelas são reprovadas com mais frequência, e cedo abandonam os estudos. Quando adultos, que condições de concorrer com pessoas mais inteligentes, que estudaram em melhores escolas, a empregos que remuneram melhor? Não é sem motivo que os piores trabalhos e os mais baixos salários, senão o desemprego, a eles estão reservados.
E em nossa cidade, que é a segunda cidade negra do mundo, aonde 78% da população é constituída de negros e mulatos, só perdendo para Laos, na África. Então, o quê faz o governo? Cria vagas para negros nas universidades. E quem é branco ou negro em Salvador? O governo vai fazer D.N.A. para todos os candidatos? Tirando o nêgo retinto e o galeguinho dos óio azul, todos são mestiços, nesta cidade da Bahia. Considero vagas para negros nas universidades uma excrescência por parte do governo. Em vez de oferecer ensino de boa qualidade nas escolas públicas, frequentadas pelos pobres, e em nosso meio pela maioria negra e mestiça, sai mais barato reservar vagas para negros. O aluno que foi medíocre (termo errôneo, pois medíocre quer dizer na média) na escola secundária, certamente o será na universidade e um profissional equivalente sairá com um “canudo” nas mãos. Em se tratando de um médico, a baixa formação profissional, vai se refletir no pobre que procura atendimento nos hospitais públicos. O rico, e com frequência esses maus políticos, não tem planos de saúde, nem “mofam” nas filas do SUS.  Procuram hospitais particulares, aonde são atendidos por Ph.Ds. , como se sua vida valesse mais que a do pobre.
Voltando ao baixo Q.I. do pobre cuja desnutrida mãe o gerou, que outra possibilidade de ganhar dinheiro lhe resta se não o crime? Ou cair nas drogas, ou no álcool, pois, ao drogar-se, a fome, a injustiça, o desemprego e a segregação são mais fáceis de serem tolerados.Você reparou como em Salvador, Recôncavo e adjacências, os empregos de baixa remuneração e as celas das cadeias são ocupadas por negros e mulatos?
Enquanto isso um Deputado Estadual ganha 12.500,00 Reais por mês, mais 29.259,38 de verba indenizatória, fazendo um total de 31.750,38 Reais*, fora o P.F. (Por Fora). Que fique bem claro: Existem políticos honestos, mais infelizmente são difíceis de serem identificados. Principalmente após serem eleitos.
Lembro-me de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. Não Mestre Rui, desanimar-se sim , a rir-se e ter vergonha nunca! E permanecer calado (quem cala consente), jamais!
O Homem aprende a ser livre quando aprende a dizer não!
Vá  trabalhar vagabundo!!!                                                                            
* Dados obtidos do Google 2011.                                                                                                                
                                                                                                                                                                                                   
Salvador, 21 de Agosto de 2011.
Sávio Drummond.                                                            

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

ALFA CENTAURO

Encontrava-me a bordo de uma nave interestelar, chamada Pégasus, que criava um campo gravitacional em torno de si e ao inverter a polaridade desse campo disparava rumo ao espaço, com aceleração semelhante à da gravidade, ou seja, 9,8 m/seg. a cada segundo. Ao utilizar o campo gravitacional dos planetas, no exato momento em que os tangenciávamos, éramos “catapultados”, ao invertermos a polarização, e deixamos o Sistema Solar a fantásticos 12.000 km/ seg.
Nosso destino era a estrela mais próxima da terra, Alfa Centauro. Alfa, 1º letra do alfabeto Grego, é como se designa a estrela mais brilhante de uma constelação ou o líder de uma manada, bando ou matilha. 
Duas estrelinhas alinham-se apontando para a constelação do Cruzeiro do Sul. A mais brilhante é ela, o sistema ternário chamado de Alpha Centauri.
Mesmo ao viajarmos a tão fantástica velocidade (máximo alcançado pelo homem é de 25.000 km/hora, velocidade das naves na reentrada da atmosfera), levaríamos 51,6 anos para atingirmos o sistema de Alfa Centauro, pois se encontra a 4,3 anos luz de distância. Para resolver esse problema foram acionados os motores de neutrinos, que lançam as partículas subatômicas, acima da velocidade da luz (299.793 km/seg.), em um luminoso rastro azulado, e em velocidade sempre crescente, em 5 meses e 18 dias começamos a desacelerar, para não passarmos, ou para que pudéssemos pousar suavemente em um planeta que orbita Alfa Centauro A. Sinais captados por radiotelescópios, oriundo do 5º planeta , pouco maior e tão massivo quanto a Terra, que gira em torno da mais brilhante das três estrelas, eram fortes indícios de vida inteligente.Naves não tripuladas para lá foram lançadas e fotos mostraram um mundo com nuvens, terra, água e abundante vegetação.Sua atmosfera foi analisada e 25% de O2 em vez dos 20,9%, do nosso ar, revelou-se em  uma atmosfera saudavelmente respirável. Só não foram registrados os prováveis seres inteligentes que há anos vinham mandando mensagem às estrelas.
Antes da aterrissagem, todos os 32 planetas que orbitam o sistema foram examinados. Não apresentavam condições de manter a vida, pelo menos, como a conhecemos.Alguns eram gasosos como os gigantescos Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Outros ou estavam muito perto das estrelas, com temperaturas de até 324°C ou longe demais, onde -250°C eram atingidos.  Em um chovia gasolina, e em outro H2SO4 (Ac. Sulfúrico). Em outro a quantidade de CO2 na atmosfera era asfixiante, em outro, furacões atingiam 420 km/hora e despedaçariam qualquer um, e em outro a pressão atmosférica era 100 vezes maior que a Terrestre.Serviriam como “trampolim” no retorno, permitindo um retorno mais rápido. 
A inospitabilidade não “dava guarida” ao frágil ser humano, apenas o das transmissões radioestelares estava na chamada zona habitável. Em todos, os pôr dos Sóis eram maravilhosos. Três alaranjados Sóis desapareciam atrás do horizonte, tingindo tudo de carmim. Pousamos em um descampado, perto de pequena e densa floresta, próximo ao que os indicadores de vida mostravam ser uma grande cidade. Analisadores da atmosfera mostravam o que já sabíamos. O ar era perfeitamente “limpo”, sem sequer traços de CO (Monóxido de Carbono), comum nas cidades, devido à queima de combustíveis fósseis. Certamente superaram este problema. 
Resolvemos deixar qualquer arma, na nave. De que adiantariam se os habitantes locais resolvessem ser hostis? Só passaríamos a imagem de sermos belicosos. Mantivemos dois astronautas na nave e levamos apenas os radiocomunicadores. 
A rampa da nave nos levou à grande área gramada, protegida por um pequeno bosque. Adiante deveriam começar as habitações suburbanas da metrópole de aproximadamente cinco milhões de pessoas, identificada quando do sobrevoo, e por isso escolhida para a aterrissagem. Ao sairmos da floresta “a vista” se perdia no horizonte. Nada a nossa frente como os aparelhos mostravam. - Foi para isso que viajamos mais de 41 trilhões de km? Exasperado, gritou um dos integrantes, enquanto arremessava uma pedra contra a fictícia cidade. Para espanto de todos a pedra ricocheteou no ar. Repetimos a experiência, e a mais primitiva das armas mostrou que um campo de força repelia-as.
Pedi a todos que diante do escudo invisível, levantassem as mãos, mostrando que não estávamos armados, e que nossas intenções eram pacíficas.Assim fizemos e uma grande cidade com edifícios, viadutos, veículos terrestres e voadores apareceu. Dois indivíduos desceram de uma espécie de carro voador que pousou próximo a nós. 
Poucos metros separavam o homem, da resposta de sua maior pergunta: Estamos sós no Universo? 
Dois seres hominídeos, pararam ante a barreira e levantaram as mãos direitas, em um gesto universal de paz. Repetimos o gesto e apertando um botão de um pequeno aparelho, como um controle remoto, vieram em nossa direção. A barreira, provavelmente o enorme campo de força, tinha sido desligada.alguém; Abaixei a cabeça (gesto submisso, de quem oferece o pescoço ao adversário). Entreolharam-se, (como se perguntassem o que significava isso?) e nos imitaram. O contato imediato do 2º grau tinha sido estabelecido.
Vestiam longas túnicas claras, e eram muito altos, de prováveis 2,10 a 2,15 m. A pele muito clara, olhos azuis e os cabelos brancos, mostravam que evoluíram sem a exposição “equatoriana” aos raios Solares.Subitamente em minha mente formou-se um pensamento:  Bem vindos ao nosso planeta, 5º a orbitar a estrela mais perto da sua. Há dezenas de anos mandamos mensagens através de radiotelescópios, na esperança de sermos ouvido. Finalmente conseguimos.
Olhando-os de perto e mais atentamente, percebi que um era pouco mais alto e tinha os ombros mais largos. O outro tinha os traços mais delicados e pequenas protrusões destacavam-se por baixo da túnica. Eram seios.  Ambos eram imberbes. Macho e Fêmea vieram nos receber.Entramos no carro voador e fomos à cidade. Em nosso voo percebi que havia “corredores” aéreos, e que os carros que andavam nas pistas, obedeciam a semáforos, assim como na terra. Só que tudo mais ordenado e limpo. Parecia que os sentimentos de cidadania e coletividade eram bem mais intensos. Sentamo-nos em confortáveis poltronas, enquanto nossos anfitriões perguntaram se não queríamos conhecer o planeta? Ante a resposta afirmativa, dois jovens fizeram sinal ao grupo que os acompanhassem, e quando me levantei para acompanhá-los, pediram para que ficasse. Entendi então por que desejavam que permanecesse. Os pensamentos que em minha cabeça se formavam, era telepatia e dos membros da equipe, eu era o de maior receptividade e poder de comunicação.
Desejavam através da telepatia fazer um dicionário falado, para que a comunicação verbal fosse possível em futuros encontros.Uma palavra era pensada por eles e eu a verbalizava. Uma máquina gravava minha resposta. Eles então a falavam em sua língua, como em um tradicional dicionário. Em futuros encontros a máquina, que gravava qualquer pensamento, mesmo dos não telepatas, abastecida com milhares de verbetes e frases inteiras, emitiria o som na língua de cada interlocutor, bastava formar a frase mentalmente. Enquanto os companheiros exploravam o mundo distante, por cinco dias, dia e noite procedi aos exercícios, inicialmente cativantes, depois entediantes, finalmente exaustivos.
Seu dia era de 26 hs.  Treze diurnas e 13 noturnas.Não tinham estações, pois o planeta não era inclinado em relação à estrela, e sua orbita era perfeitamente circular.
O pôr dos Sóis magníficos, sendo que nos pólos a menor das 3 estrelas, a anã vermelha, nunca se punha. Era o Sol da Meia Noite deles.
Disseram que quando chegamos, resolveram não se mostrar até terem certeza de nossas intenções, pois por diversas vezes estiveram aqui, e ao presenciarem as guerras, onde milhões se mataram, deixaram de vir.
Para conquistar territórios, fazer escravos, tomar riquezas como o ouro, petróleo e até por religião, guerrear sempre foi a maior habilidade do Ser Humano.Muitas pinturas, inclusive algumas Bíblicas registravam suas presenças entre nós, anteriormente.Alguns povos na antiguidade os tomaram por Deuses.
Não tinham dinheiro, e a vida entre eles era comunal. Tudo era de todos, conforme suas necessidades temporárias. A divisão de trabalho baseava-se nos dons ou inclinações e não nas necessidades materiais do grupo, pois o número de máquinas substituindo a mão de obra dos habitantes era enorme. Por fim, pude conhecer rapidamente o planeta. Viajara tanto para “bater papo”. A despedida foi triste, como a maioria das despedidas. Falaram-me que estariam sempre prontos a me ajudar, através do pensamento.Para o pensamento não há barreiras. Não há tempo ou espaço.
Acordei chorando.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  
 Salvador, 27 de Dezembro de 2011
                                                                                   Sávio Drummond