Devia ter sentido mais
a chuva em meu rosto. Tê-la buscado e não ter sido surpreendido por ela. Mas
tinha medo de pegar um resfriado.
Devia ter visto mais o Sol nascer na boemia. Mas ele sempre me encontrou
estudando ou trabalhando.
Devia ter sentido mais o cheiro das coisas. O mundo é cheiroso. A vida é
cheirosa, mas só percebi isso quando pouco olfato me restava.
Devia ter beijado mais. A meus pais, a minha esposa, meu irmão, minha
filha, meus amigos. Mas estava sempre ocupado. Agora sinto falta dos beijos que
não dei.
Devia ter ouvido mais. O mundo vibra em uma frequência harmoniosa como em
uma sinfonia Divina. Mas o barulho do trabalho me roubou parte da audição. Hoje
até o silêncio parece-me cobrar as notas roubadas.
Devia ter
sido mais ocioso. Na ociosidade produz-se mais do que pensamos. Mas estava
sempre atarefado para perceber isso. Devia ter visto mais. As coisas mais lindas são invisíveis para nós, que
nos acostumamos a olhar, não a ver.
Devia ter tido mais Domingos. Minha semana sempre teve mais dias que a
normal, e nenhum deles era feriado.
Devia ter
viajado mais, conhecido mais pessoas e lugares. Há sempre gente e locais para
conhecer. Mas estava sempre preocupado em chegar.
Devia
ter sido menos ansioso. Pois a vida está sempre “vindo”, e saber esperar é uma
arte.
Devia ter esperado menos dos outros. Cada um dá daquilo que tem. E muitos têm muito pouco pra dar.
Devia
ter perdoado mais. Hoje tenho tanto perdão a pedir.
Devia ter me arriscado mais. Viver é
coisa arriscada, e sempre tive medo de arriscar, com medo de perder.
Devia
ter sido menos ambicioso. As coisas realmente importantes, como a amizade, os
afetos, e o bem, nos são dadas de graça, mas estive sempre preocupado com o
preço das coisas.
Devia
ter sido mais verdadeiro. As grandes verdades são ditas de formas simples. Olhe
as crianças. Elas falam o que lhes vem ao coração.
Devia
ter comido menos sal e açúcar. Sempre adocei ou salguei muito as coisas, em
busca de um sabor que acabei escondendo pelo excesso.Devia ter encarado a
vida de frente. De nada adiantou “dopar-me”, com falsos calmantes, que apenas “me
esconderam” a verdade.
Devia ter me preocupado
menos. A cada dia “basta o seu mal”.
Devia ter sido mais curioso. Tudo no mundo” tem um por quê”. Deixei de
aprender muita coisa.
Devia ter sido menos orgulhoso. A vaidade nada me acrescentou.
Devia ter feito mais serenatas. As
janelas das moças ficaram fechadas para meu canto.
Devia ter aprendido a tocar um instrumento. A música nos aproxima dos
anjos.
Devia ter apreciado mais o luar e o por do
Sol. São lindos e Deus não cobra nada por eles.
Devia ter aprendido
inglês. Os livros seriam menos misteriosos.
Devia ter aprendido a orar.
Através da oração falamos com Deus.
Devia ter mais “cicatrizes”. A
pele imaculada mostra apenas uma vida enfadonha.
Devia ter sido uma pessoa melhor. A sensação
de “dever não cumprido”, me esmaga.
Devia
ter aprendido mais. Vou ter que repetir de ano.
Salvador,
26 de Junho de 2012.
Sávio
Drummond.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
O VENTO
Um
dos personagens, mais “perturbados” que conheci, foi o vento.
Aventureiro, conhece o mundo inteiro, pois já deu várias voltas ao globo.
Prestativo, seca as roupas
do varal, refresca-nos, agita as folhas das árvores e a palha dos coqueiros,
dando-nos poesia de graça.
Da Grécia antiga o Deus Éolo
soprando forte, esfuma as velas dos saveiros, levando-os a lugares que só
atingimos com o pensamento. Continentes
foram descobertos, pelo Homem dito civilizado, graças à força de seu sopro, ao
movimentar as Caravelas.
Ele
também movia às pás dos Moinhos de Vento, que deram lugar as atuais hélices de
altas torres, para geração de energia elétrica.
O Homem muito deve ao vento. Graças
a ele, empinava as arraias (pipa, papagaio) quando criança, e era horrível
quando ele as levava para diante do Sol. Não dava para ver nada!
À
noite, soprando nas frestas da janela, parecia um lamento e muitas vezes me
roubava o sono.
Ousado
e brincalhão, levanta as saias das mulheres, provocando gritos de susto, e as
corando de vergonha. Um devasso esse vento, um horror!
Ele também “empurra “as nuvens, no azul do céu, e assim participa da
obra-prima que Deus nos dá de graça, todo entardecer e amanhecer, quadro que
nem os Grandes Mestres sonharam em pintar, e ninguém repara...
O
vento traquino, “dando uma” de poeta, também agitou os cabelos negros de minha
primeira namorada, e fez com que um perfume de sândalo me embriagasse. Obrigado
amigo!
Quando
adolescente, costumava ficar juntamente com um grupo de desocupados, no calçadão
do Edifício Sulacap, esquina da Ladeira de São Bento com a Avenida Sete. Ante
nossos olhos a Praça Castro Alves, o monumento onde no alto o Poeta dos Escravos,
com a mão direita em riste, declama seus versos, o mar azul da Cidade da Bahia e
o cinza do perfil das ilhas, do outro lado da baía.
Todo
dia, as 17:00 hs, no verão, o vento, “saído do nada” levantava as saias das
moças, que costumavam ir com as mães assistirem a missa das cinco na Igreja de
São Bento.
Era moda na época, uma saia rodada, chamada Balão, que muito facilitava o
trabalho do depravado. Ficávamos
apostando cigarro, para ver quem acertava a cor das calcinhas das moças.
Preta e branca
eram as preferidas, e um colega nosso, alto, magro com óculos fundo de garrafa,
que não errava nunca, acertou certa tarde a improvável cor de uma; Amarela!
Apelidaram-no, a partir desta data de Calçolão!
Certa feita uma moça passou, acompanhada da mãe e o vento devasso,
“rápido como quem rouba”, levantou sua saia até o pescoço.
Para
surpresa nossa a coitada, que devia estar com algum problema de alergia, estava
sem calcinha e depilada! Calçolão
não “perdeu tempo”, e exclamou:
- Essa
eu não acertaria nunca. Mas, parabéns moça, passou no vestibular!
Até o poeta, no alto do seu “modorrento” pedestal, arriscou uma olhadela
de “canto de olho”.
Isso
aconteceu há 40 anos, e outro dia vi um humorista contar na televisão, como
piada!
Mas
é verdade. Calçolão está de prova, e eu estava lá. Juro!
Salvador, 16 de maio de
2012 Sávio Drummond.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
MEMÓRIAS DO BORDÉU
Pensei muito se deveria escrever este
conto.
Mas, se o escritor alagoano Graciliano Ramos escreveu Memórias do Cárcere,onde narra suas memórias na prisão durante a Ditadura de Getúlio Vargas, porque não posso escrever sobre fatos acontecidos nos bordéis? É verdade que entre eu e Graciliano vai uma distancia muito grande.
Distância que usa Fardão da Academia Brasileira de Letras e se expressa em livros de caras brochuras.Quanto a mim, no máximo em folhetos misturados aos Cordéis.
Também, o colombiano Gabriel Garcia Marques, premio Nobel de Literatura em 1982, escreveu Memória de Minhas Putas Tristes. Porque eu não posso?
A 1º memória retrocede a 1888 quando Vincent Van Gogh (1853 - 1890),genial pintor holandês, dividiu o aluguel com o artista francês Paul Gougain (1848 - 1903), na cidade de Arles, no sul da França. Em busca de luz, o pintor holandês foi morar em região mais equatorial e por desentendimento com o também pintor Paul Gougain, quis agredi-lo, por discordarem a respeito do Movimento Impressionista batizado por Vincent, de Casa Amarela, em alusão ao sobrado em que moraram por dois meses.
Outros dizem que Van Gogh, foi a um bordel, e emocionado com a história que lhe contou uma prostituta, de que estava naquela vida para alimentar os filhos, acabou dando todo seu dinheiro a ela.Contou a Paul Gougain o que tinha feito. O francês foi verificar a veracidade da história ou se era mais um devaneio do companheiro sonhador.Relatou a Van Gogh, que a mulher o enganara e que “transou” com ela a noite toda. Alucinado, partiu pra cima do francês, que muito mais forte e corpulento, derrubou-o com um safanão e retirou-se. O holandês então, por ter sido enganado pela mulher e por ter sido inferiorizado fisicamente, com a navalha de fazer barba, corta a própria orelha, punindo-se.
Era o ano de 1888 e estava com 36 anos. Gougain foi pintar as morenas das ilhas francesas do Pacífico Norte, principalmente em Papete, capital do Thaití, e morreu aos 55 anos de Sífilis, sendo enterrado em Dominica, nas ilhas Marquesas.
Um conhecido meu, foi a um Bordel chamado Buraco Doce.Lá encontrou uma colega nossa, que estudava o Científico de dia e era “Garota de Programa” à noite. Assim custeava seus estudos e a pensão onde morava. Hoje é médica famosa.
Porém, entrou para os anais da literatura popular o discurso que um conhecido fez à beira do caixão, em um velório em um “puteiro” do Pelourinho. Um conhecido farrista dos anos 50, Aristeu Carrasco Dellos Chíbius (tem cada sobrenome estrangeiro...), foi encontrado morto no quartinho que alugava no Pelô. Devido aos antecedentes de cachaceiro, o médico assinou o Atestado de Óbito como; “Complicações decorrentes de Cirrose Hepática”.Os “amigos de copo” se quotizaram e compraram um caixão, e seus conhecidos, personagens das noites baianas, bêbados e prostitutas foram velar-lhe em um Bordel no Pelourinho, chamado Anjo Azul.Como a receptividade foi boa, num instante apareceu Violão, Cavaquinho,Timbau e até uma Flauta Transversal.
O velório cumpria o desejo do falecido, que pediu para ser velado pelos amigos, com muito samba e cachaça. Nada de lágrimas. Também não deixou viúva ou filhos que o pranteassem.Os agiotas e bancos, a quem devia “se lenharam”. Não restou ninguém para pagar as dívidas.
Em meio ao “sambão”, ou melhor, velório, o repentista famoso, Romeu do Amor Divino, admirado por sua capacidade de improvisar, começou:
A prostituta Maria Tanajura fez rima com voz de “frete”:
- Romeu, seu cacete é meu!
Fazendo de conta que não tinha ouvido, continuou Romeu.- Neste momento solene, pranteamos nosso amigo, que faleceu”...
E como cachaça e velório não combinam, exclamaram:
- Quem faleceu se fodeu, antes ele do que eu!
O companheiro do lado de Aristeu, muito contrito, chapéu na mão, intercede:
- Até você Chico Navalhada...
O Sr. Francisco das Virgens, que ostentava enorme cicatriz de antiga navalha no rosto, e que detestava o apelido, sentindo-se ofendido, retrucou:
- Navalhada é a puta que te pariu!
Era o que faltava para a pancadaria “comer solta”...Parecia a letra de certa canção que diz: “’A orquestra tocando alto pra Polícia não ouvir, quem estava fora não entrava e quem estava dentro não saía”...
Mas apesar do barulho do conjunto, ouviram e chamaram a Polícia.
O soldado Jamanta, legítimo representante das terras baianas, crioulo de dois metros de altura, juntamente com seus “meganhas”, acabou com a briga, batendo em “todo mundo”, e a todos levou para a delegacia, inclusive o defunto com o caixão, já meio escangalhado, pois no tumulto caíram sobre ele.
O delegado fez o B.O. e manteve todos na delegacia, até que os ”vapores do álcool” desaparecessem.No outro dia soltou os brigões e o defunto.
Como castigo tiveram que carregar o caixão de volta até o Pelô.
Quando já estavam às portas do Anjo Azul, alguém tropeçou nas centenárias pedras “cabeça de negro”, e foi ao chão juntamente com o caixão que se espatifou definitivamente.
Será que o Copo Furado se incomoda se for enterrado em uma rede?
- É melhor em uma rede do que sem nada. Além do quê, defunto não tem vontade. Não há mais dinheiro, nem tempo, pois o finado já “ta” cheirando mal.
E assim, finalmente, Aristeu foi enterrado, sob belos “pontos” de Candomblé, entoados por Mães de Santo e Ialorixás.
Sávio Drummond.
Mas, se o escritor alagoano Graciliano Ramos escreveu Memórias do Cárcere,onde narra suas memórias na prisão durante a Ditadura de Getúlio Vargas, porque não posso escrever sobre fatos acontecidos nos bordéis? É verdade que entre eu e Graciliano vai uma distancia muito grande.
Distância que usa Fardão da Academia Brasileira de Letras e se expressa em livros de caras brochuras.Quanto a mim, no máximo em folhetos misturados aos Cordéis.
Também, o colombiano Gabriel Garcia Marques, premio Nobel de Literatura em 1982, escreveu Memória de Minhas Putas Tristes. Porque eu não posso?
A 1º memória retrocede a 1888 quando Vincent Van Gogh (1853 - 1890),genial pintor holandês, dividiu o aluguel com o artista francês Paul Gougain (1848 - 1903), na cidade de Arles, no sul da França. Em busca de luz, o pintor holandês foi morar em região mais equatorial e por desentendimento com o também pintor Paul Gougain, quis agredi-lo, por discordarem a respeito do Movimento Impressionista batizado por Vincent, de Casa Amarela, em alusão ao sobrado em que moraram por dois meses.
Outros dizem que Van Gogh, foi a um bordel, e emocionado com a história que lhe contou uma prostituta, de que estava naquela vida para alimentar os filhos, acabou dando todo seu dinheiro a ela.Contou a Paul Gougain o que tinha feito. O francês foi verificar a veracidade da história ou se era mais um devaneio do companheiro sonhador.Relatou a Van Gogh, que a mulher o enganara e que “transou” com ela a noite toda. Alucinado, partiu pra cima do francês, que muito mais forte e corpulento, derrubou-o com um safanão e retirou-se. O holandês então, por ter sido enganado pela mulher e por ter sido inferiorizado fisicamente, com a navalha de fazer barba, corta a própria orelha, punindo-se.
Era o ano de 1888 e estava com 36 anos. Gougain foi pintar as morenas das ilhas francesas do Pacífico Norte, principalmente em Papete, capital do Thaití, e morreu aos 55 anos de Sífilis, sendo enterrado em Dominica, nas ilhas Marquesas.
Um conhecido meu, foi a um Bordel chamado Buraco Doce.Lá encontrou uma colega nossa, que estudava o Científico de dia e era “Garota de Programa” à noite. Assim custeava seus estudos e a pensão onde morava. Hoje é médica famosa.
Porém, entrou para os anais da literatura popular o discurso que um conhecido fez à beira do caixão, em um velório em um “puteiro” do Pelourinho. Um conhecido farrista dos anos 50, Aristeu Carrasco Dellos Chíbius (tem cada sobrenome estrangeiro...), foi encontrado morto no quartinho que alugava no Pelô. Devido aos antecedentes de cachaceiro, o médico assinou o Atestado de Óbito como; “Complicações decorrentes de Cirrose Hepática”.Os “amigos de copo” se quotizaram e compraram um caixão, e seus conhecidos, personagens das noites baianas, bêbados e prostitutas foram velar-lhe em um Bordel no Pelourinho, chamado Anjo Azul.Como a receptividade foi boa, num instante apareceu Violão, Cavaquinho,Timbau e até uma Flauta Transversal.
O velório cumpria o desejo do falecido, que pediu para ser velado pelos amigos, com muito samba e cachaça. Nada de lágrimas. Também não deixou viúva ou filhos que o pranteassem.Os agiotas e bancos, a quem devia “se lenharam”. Não restou ninguém para pagar as dívidas.
Em meio ao “sambão”, ou melhor, velório, o repentista famoso, Romeu do Amor Divino, admirado por sua capacidade de improvisar, começou:
Quem
morreu , morreu.
Antes ele do que eu.Quem
morreu, morreu,
Antes
ele do que eu.
Aristeu,
Aristeu.
Você
se fodeu. . .
Romeu Bahia dos Santos, o
mais culto do grupo, e que se saiba, nunca riu, foi escolhido pelo estranho
grupo para dizer algumas palavras de despedida.
- Estamos
aqui reunidos, com os olhos rasos d´água para despedirmos-nos de nosso amigo Aristeu,
o popular “Copo Furado”... A prostituta Maria Tanajura fez rima com voz de “frete”:
- Romeu, seu cacete é meu!
Fazendo de conta que não tinha ouvido, continuou Romeu.- Neste momento solene, pranteamos nosso amigo, que faleceu”...
E como cachaça e velório não combinam, exclamaram:
- Quem faleceu se fodeu, antes ele do que eu!
O companheiro do lado de Aristeu, muito contrito, chapéu na mão, intercede:
- Até você Chico Navalhada...
O Sr. Francisco das Virgens, que ostentava enorme cicatriz de antiga navalha no rosto, e que detestava o apelido, sentindo-se ofendido, retrucou:
- Navalhada é a puta que te pariu!
Era o que faltava para a pancadaria “comer solta”...Parecia a letra de certa canção que diz: “’A orquestra tocando alto pra Polícia não ouvir, quem estava fora não entrava e quem estava dentro não saía”...
Mas apesar do barulho do conjunto, ouviram e chamaram a Polícia.
O soldado Jamanta, legítimo representante das terras baianas, crioulo de dois metros de altura, juntamente com seus “meganhas”, acabou com a briga, batendo em “todo mundo”, e a todos levou para a delegacia, inclusive o defunto com o caixão, já meio escangalhado, pois no tumulto caíram sobre ele.
O delegado fez o B.O. e manteve todos na delegacia, até que os ”vapores do álcool” desaparecessem.No outro dia soltou os brigões e o defunto.
Como castigo tiveram que carregar o caixão de volta até o Pelô.
Quando já estavam às portas do Anjo Azul, alguém tropeçou nas centenárias pedras “cabeça de negro”, e foi ao chão juntamente com o caixão que se espatifou definitivamente.
Será que o Copo Furado se incomoda se for enterrado em uma rede?
- É melhor em uma rede do que sem nada. Além do quê, defunto não tem vontade. Não há mais dinheiro, nem tempo, pois o finado já “ta” cheirando mal.
E assim, finalmente, Aristeu foi enterrado, sob belos “pontos” de Candomblé, entoados por Mães de Santo e Ialorixás.
Em sua lápide, apareceu misteriosamente (terá sido o Romeu?) escrito:
Finalmente aqui descansa Aristeu.
Cachaceiro, mulherengo e putanheiro.
Deixou saudades o amigo meu,
E as prostitutas choram o companheiro.
Salvador, 08 de Abril
de2012
Sávio Drummond.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
A ENFERNEIRA
Tive uma Técnica de Enfermagem, como auxiliar em um Posto de Urgências em que
trabalhei.
Muito
religiosa, só andava dizendo; -“Sangue de Cristo tem poder!”
Gostava muito de
música e com um “ouvido apurado”, estava aprendendo auto - didaticamente, através
de um método, a tocar flauta doce.
Depois do almoço, eu
querendo descansar e a “Enferneira” tocando a flautinha:
-Fuim,
Fuem...Fuim, Fuem.
Quem já passou por “tortura” semelhante, sabe
que só existe uma coisa pior que flauta mal tocada. Violino mal tocado!
Enquanto outro
colega, “guarnecia o forte”, eu procurava, buscava,
necessitava descansar.
Mas a flautinha impiedosa
continuava seu “berreiro” cruel:
-Fuim, Fuem...Fuim, Fuem ...
Como ela era Evangélica, resolvi
usar de argumentos Bíblicos para fazê-la parar:
- Irmã, você conhece aquela passagem do Novo Testamento que fala de
Jesus no Monte das Oliveiras, e Zaqueu, o cobrador de impostos?
Mostrando que a “isca” funcionara:
- Conheço, mas em se tratando do
Senhor, qual se refere?
- Madrugada, e Jesus, sentado em uma pedra, meditava. Seus discípulos
sentados no chão aguardam. O tempo passa e eles começam a adormecer. Para
espantar o sono, Zaqueu, um dos seus apóstolos, começa a tocar uma flautinha,
assim como você. barulho chega até Jesus, que interroga:
- Quem toca este
instrumento?
Zaqueu
percebendo que estava sendo inconveniente, prosta-se ante seus pés e
exclama:
- Senhor desculpa-me. Dizei uma só palavra e jogarei às chamas, este
maldito instrumento.
Jesus,
emocionado com a atitude do baixinho Zaqueu, levanta-o e segurando em seus
ombros, diz:
- Zaqueu, filho meu, humildade como a sua, meu olho nunca viu. Mas vá tocar mal
esta flauta, na “puta que te pariu”!
De outra feita, de
madrugada, estava no quarto, quando a “enferneira”, entra esbaforida,
gritando;
-Doutor, um
homem ensanguentado, como uma faca na mão, entrou no posto gritando que quer
sangue, quero sangue! Nisso o
homem, acompanhando-a entra também no quarto:- Eu quero sangue, preciso de sangue!
A “enferneira” tranca-se
no banheiro, gritando; -“Sangue de Cristo tem poder. Valha-me Nosso Senhor
Jesus Cristo. Pelas sete chagas de Cristo, acudam-me”!
Calmamente procuro atender ao homem, enquanto
“estudo” por onde fugir.
O homem ensanguentado, na verdade fora ferido, em uma briga de faca, e
pedia que lhe dessem sangue, pois achava que precisava de uma transfusão...
Soube há pouco que a “Enferneira”, aposentou-se, estudou e hoje toca harpa e está ganhando muito bem como professora de música.
Salvador, Fevereiro de 2012.
Sávio Drummond.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
A DESCANTADA
Fim
de tarde de sábado. Dirije-se à barraca de praia perto de sua casa a fim de
“curtir” a hora mais agradável do dia. Nela, a luz é ainda suficiente para
destacar cores e contrastes sem arder na pele. Lá chegando, procura
uma mesa, enquanto o vulto atarefado e grisalho do proprietário acena-lhe num
cumprimento cordial.
É uma tarde magnífica e começa
a imaginar como seriam estas praias na época do descobrimento.
Com o pensamento
viajando, chega a ver algumas caravelas de panos esfumados que se aproximam,
quando dois vultos saídos do mar tiram-no desses devaneios.
São duas belas jovens
que vem em sua direção. A morena então é perfeita, com suas curvas mal cobertas
por sumário biquíni, chama a atenção dos poucos presentes. Com
ares indiferentes, próprios das mulheres acostumadas com os olhares mais
ardentes, sentam-se na mesa em frente à sua. A morena de costas para ele e de
frente ao mar. Sua acompanhante em posição inversa.
A
pele morena tem uma tonalidade acobreada pelo sol de muitas praias. A cabeleira
cacheada chega-lhe à cintura com o peso d’água e esta, escorrendo em milhares
de gotinhas, brilham ao sol poente, definindo-lhe os contornos como mágico
neon. Fina penugem dourada arrepia-se ao frio do fim da tarde.
Lembra-se do ditado; “Se Deus fez algo melhor que a mulher, guardou pra
Ele”. Discorda. Naquele momento têm a certeza que o Criador, num profundo
gesto de amor à sua imagem e semelhança, deu-a para nós, míseros homens...
Viajando
mais uma vez, não percebe que está com uma cara ridícula, com o olhar devorando
o vulto moreno á sua frente, boquiaberto, sedento.
A mímica de sua
acompanhante chama-lhe a atenção. Mostra certamente à jovem que conquistara
mais um admirador. Dissimuladamente, como se procurasse
qualquer coisa, em qualquer lugar, olha para os lados e finalmente, por
cima do ombro, para ele.
E se não bastasse tudo aquilo a danada ainda tem os olhos claros! Subitamente formam-se em seu pensamento uns versinhos, daqueles que já
vem prontos, sem direito a corrigir vírgula ou ponto. E no tampo da mesa
deixa-os:
Menina
dos olhos d’água,
Olha
um pouquinho pra mim.
Mata
esta sede morena,
Que dói como coisa ruim.
Das
muitas mortes malvada,
De
uma sempre temi.
Morrer de morte
jurada,
Por
teus olhos, fugindo de mim.
Escreve estes versos da forma mais acintosa possível, com letras grandes e de imprensa, na esperança de que procurem lê-los após afastar-se.
Com esta
estratégia, vai ao encontro do barraqueiro, onde encontra alguns amigos recém
chegados e também impressionados com a beleza da jovem.Conta-lhes
o que tinha feito, e aos poucos, um clima de expectativa toma conta do ambiente.
As moças mudariam de mesa para lerem os versos? A cerveja rola
solta e algumas apostas começam a serem feitas, quando, pretextando um incômodo
que o Sol possa estar causando, levantam-se e procuram o abrigo da sombra do
coqueiral que a esta altura derrama-se sobre a mesa que ocupou recentemente. Mal chegando não conseguem conter a curiosidade, e, “as favas” com a
discrição, inclinam-se sobre a mesa procurando
ler o que lá se encontrava. Entre taquicardia e sudorese
nota que as duas conversam, certamente comentando os versos, quando de repente
a morena vira-se para ele, e seu sorriso acerta-o devastador como um míssil.-Vai lá rapaz! O mais difícil você conseguiu! Cutucam-lhe às costas
os amigos, que depositam nele, representante de última hora da “macheza local”,
os desejos transbordantes de todos. Enche o peito e a
passos decididos vai em direção a jovem. No meio do caminho quebra sua
trajetória em 90° e toma o rumo de casa.Uma
sonora vaia e alguns adjetivos nada lisonjeiros espocam da barraca.Cabeça baixa, mãos nos bolsos, pensa na negação de Machado de Assis ao
ditado popular; “A ocasião faz o roubo. O ladrão já existia.” Logo
ao chegar procura escrever os versinhos antes que os esqueça, e nem bem os
termina, uma voz inquire às suas costas: - Pra quem são
estes versos? É sua filha
adolescente, também morena, que pergunta curiosa. -São pra você. Tome-os! Lê-os
atentamente e um tanto decepcionada, discorda.- Mas eu não tenho os olhos claros!-
Licença poética filha, não tem a menor importância.
Sávio Drummond
Maio, 2012
quarta-feira, 9 de maio de 2012
MALUCO BELEZA
Chamava-se
Raul dos Santos Seixas, e nasceu em Salvador em 28 de Junho de 1945.
Ano em que
os americanos jogaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Raul nesse ano
“explodia” para a vida.
-“Hoje
estão comendo bacalhau, no quarto em que nasci”, referindo-se ao Restaurante
Português, que foi construído na sua antiga casa.
Da geração de
Caetano, Gil, Maria Betânia, Gal Costa, não aderiu ao Tropicalismo, pois fora apresentado ao Rock and Roll pelos vizinhos, filhos de americanos, que trabalhavam no Consulado Americano na Bahia. Desde
cedo se apaixonou pelo Rock e aos 14 anos fundou um Fã Clube de Elvis
Presley.
Aos
15 anos ganha dos pais um violão e aprende a tocar sozinho.
Em 1962, aos 17 anos, em pleno movimento da Bossa Nova, trocou sua
lambreta por dois violões e um contrabaixo e monta sua 1º banda; Os Relâmpagos
do Rock, mudando o nome posteriormente para Raulzito e seus Panteras.
Suas
principais influências foram Elvis Presley, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry e o Blue dos negros do sul dos Estados Unidos.
Apesar
de não se alinhar com o movimento da Bossa Nova, sofreu influência de Luís
Gonzaga e Repentistas.
Em 1967 a convite de
Jerry Adriane o grupo mudou-se para o Rio de Janeiro e depois de apresentações e lançamentos
fracassados, se desfez.
Raul volta a Salvador e em
1972, no VII Festival Internacional da Canção da Rede Globo, com a música Let
me sing, let me sing, cantada por ele mesmo e Eu sou eu, Nicurí é o Diabo,
defendida por Lena Rios, o país inteiro conheceu e cantou com Raul Seixas.
Os pais de Raul
obrigaram-no a fazer análise por achá-lo esquisito: Brilhantina no cabelo, “pimpão” a “la Elvis Presley”, camisas coloridas
com blusão de couro, não era “coisa de gente normal”.
Devido ao
movimento nacionalista da Bossa Nova e Jovem Guarda, Raul, cantando Rock, por vezes em Inglês, é visto como americanizado,
entreguista e alienado. A juventude baiana, porém, o aplaudia no auditório do Cine Roma.
Raul
conhece a norte- americana Edith Wisner, e apaixona-se. O pai da moça, pastor
protestante, não aprova o namoro. Raul, para ganhar a confiança do futuro sogro, presta vestibular para Direito,
Filosofia e Psicologia, e passa nas 3 entre os primeiros.Então
diz ao pastor:
-“Viu como é fácil, ser burro”?
Em Novembro de 1970 nasce sua filha 1º filha,
Simone.
Raul foi casado com Edith Wisner com quem teve Simone, Glória Vasques
que lhe deu Scarlet, Tânia Mena Barreto, com quem não teve filhos, Ângela Costa
(Kika) com quem teve Vivian e Lena Coutinho, também sem filhos.
Em
1971 Raul compõe para Jerry Adriane, Renato e seus Blue Caps, Tonnie e Frankie,
Trio Ternura, Diana e outros artistas da Jovem Guarda.
Em 1972, Raul se interessa por um artigo sobre Discos Voadores e resolve
conhecer o autor. Era Paulo Coelho. Desse encontro surgiu a amizade e parceria.
Em 1973, lança o LP Krig-Há Bandolo!
- que quer dizer “O inimigo vem aí”, considerado seu melhor LP. Músicas
como Metamorfose Ambulante, Ouro do Tolo e Mosca na Sopa, são deste LP.
Raul funda a Sociedade Alternativa, onde o
maior princípio é “Faze o que tu queres, pois é tudo da Lei”.
A Sociedade Alternativa, não
agradou ao Regime Militar e perseguido e preso pelo D.O.P.S. (Departamento de Ordem Política e Social) e deram-lhes, a ele e Paulo Coelho, um prazo de 24 horas para deixar o país. Partem para os estados Unidos, onde segundo Raul, passou 3 dias com John
Lennon, onde ambos mostraram suas músicas.
Voltam do exílio no ano seguinte (1974) devido ao sucesso do LP Gita,
disco de maior sucesso, ganhando um Disco de Ouro. Grava
Novo Eon e Há Dez Mil Anos Atrás, últimos disco em parceria com Paulo
Coelho.
No início da Década de 80, Raul começou a apresentar problemas de saúde
(Hepatite Alcoólica) devido ao consumo exagerado de bebidas.
No
final da Década de 80 Raul, apresentou-se no Clube Recreativo Plataformense (
Subúrbio Ferroviário), e o público o vaiou e jogando objetos no palco, o
expulsou, pois acharam que era um cover. Estava cambaleante e com o rosto
inchado, estigma dos alcoólatras de longa duração.
Há partir de 1988, Raul começou a gravar e excursionar com Marcelo Nova,
irreverente líder e vocalista da banda Camisa de Vênus. Certa feita fomos eu e meu
irmão, buscar Marcelo (nosso primo) no Grande Hotel da Barra, para levá-lo para
uma apresentação. Um homem vestido todo
de preto, botas de couro de cano alto, chapéu de cowboy de “aba reta”, óculos escuro (era noite) entrou no carro, após nos cumprimentar. Era o Maluco Beleza!
Em 21
de Agosto de 1989, dois dias após o lançamento do disco Panela do Diabo, Raul
Seixas morre de Ataque Cardíaco, em virtude de problemas com a bebida.
Raul
Seixas foi um homem sensível e preocupado com o mundo e as pessoas. A realidade, por certo, era muito cruel, e fugia dela através das drogas e do álcool que o mataram aos 44
anos.
Salvador, 26 de janeiro de 2012.
Sávio
Drummond.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
O HOMEM QUE ENCOLHEU
Deram-lhe o nome de Atanásio ao nascer.
Gosto do pai, homem de letras e livros, que já entrado em anos, exultou com o
nascimento do primogênito que trouxera alegria ao casarão em que viviam.
- Nome de Papa.
Vai atanazar a vida de muita gente! Propalava
o velho intelectual, jornalista talentoso, admirado por muitos e temido por
outros mais, com passagem na política e fortes tendências esquerdistas.
No
velho casarão, herança dos avôs, arrodeado da mais fina flor da
intelectualidade local, crescia
Saraus líteromusicais, comuns à sociedade
elitizada, ali eram frequentes. No salão de sólido tabuado, com pinturas de faunos com harpas e flautas,
espalhado pelas paredes ouviu as primeiras notas e versos, entoados coma
fluência e sentimento dos poetas e artistas que frequentavam sua casa.
No
salão das refeições, com paredes igualmente pintadas com motivos florais, onde
Ceres derramava os primeiros frutos e flores da primavera, a pequena família
reunia-se em torno de grande mesa de madeira de lei.
Sua
mãe desdobrava-se em mimos, dedicando-lhe o extremado amor que só as mães são
capazes de dar, e que ao primeiro espirro, metia-o debaixo das cobertas,
receosa dos pleurises e basites, tão comumente diagnosticadas pelos doutos da
época.
Equilibrando-se entre a meiguice da mãe
e a disciplina paterna, Atanásio crescia. Sempre entre os
melhores da turma, não se permitia notas baixas, pois, a terna cobrança dos
genitores, atingindo-o com um simples olhar, obrigavam-no a esforçar-se por
estar entre os primeiros.
No
Colégio dos Padres, onde estudava,
tirava as melhores notas, mas era visível que estas eram resultado de grande
esforço, e não fruto de uma inteligência privilegiada, como julgavam os
pais. Na
adolescência namorou Clara, filha também única de abastada família que morava
na mesma rua. Pequenina, com pele de Jasmim, e olhos transparentes como manhãs de
verão, era a imagem da fragilidade
Em
seu sorriso de luz, acariciava-lhe o rosto com seus dedos longos e mãos macias,
onde finas veias azuis transpareciam, enquanto falava palavras apaixonadas num
timbre de águas puras que brotam do mais fundo da terra.
Assim era Clara. Parecia a Santa
do altar do colégio. Tão menina e tão segura de si. Muito mais forte que sua
débil figura
Numa manhã de inverno despediu-se de Clara, que juntamente com a família
mudava-se para o Sul, em busca de tratamento para a enfermidade que lhe corroia
os pulmõesRecostada em uma
almofada, mais transparentes que nunca, sorriu-lhe pela última vez com seus
lábios ligeiramente azulados, enquanto o Citroën preto subia a ladeira. Nunca
mais teve notícias dela. Não ficou
triste. Apenas uma sensação de vazio no peito que nunca sentira antes e que não
conseguia entender...
Pouco depois lhe morreu o pai. Permaneceu todo tempo ao lado do caixão,
olhos fixos no rosto magro de pele clara e vasta cabeleira ainda incrivelmente
negra, e pensava como parecia ridículo um rosto tão viril arrodeado de
flores. Por
vezes sentiu ímpetos de arrancar todas aquelas flores, mas apenas ficou lá, com
aquele vazio cada vez maior e que não conseguia entender...
Com a morte do
genitor, muitas mudanças aconteceram no casarão.Com a modesta pensão que lhe deixou o marido, sua mãe teve que dispensar
os criados, ficando apenas aquela que viera junto com seu casamento e as
bagagens, e que a conhecia desde criança Os
Saraus tornaram-se raros e, por fim, não mais aconteciam.
Onde andaria
Godofredo com seu chapéu côco e seus poemas líricos? Marieta,
versada em francês, única jornalista da época, onde andaria? Emília
e seus dedos mágicos que do marfim do piano, colhia o som cristalino de Clair
de Lune? Figueroa e sua flauta
transversal, por onde derramaria suas dores e seus chorinhos?
Por
fim trancaram a sala de música com tudo que lá havia. O piano, a harpa, o
violoncelo, como em uma tumba de Faraó, para que séculos mais tarde voltassem a
serem vistos por olhos curiosos, que se admirariam das formas, mas nunca
sentiriam que naquelas paredes ainda vibravam os sons de Liszt, Debussy,
Chopin, Garoto, que em noitadas alegres encheram de emoção o casarão e a rua
inteira.
Com
os colegas da faculdade conheceu o amor carnal. Helga, uma polaca
de lábios fortemente tingidos de carmim, que lhe atestava a habilidade na arte
da felação e preferida pela estudantada, iniciou-lhe nas artes do amor. Arte?
Não para Atanásio a vida não tinha arte nem amor. Dispunha
de suas companhias femininas como de veículos para suas necessidades. Afinal elas
estavam lá para isso.
Muitos colegas seus,
apaixonados, embriagavam-se. Porres homéricos e serenatas históricas
derramaram-se pelas ladeiras, embaladas pelas paixões daqueles corações
enamorados. Atanásio apenas carregava o violão.Com
muito esforço sua mãe conseguiu custear-lhe os estudos até a formatura.
Podia
faltar tudo em casa, contanto que Atanásio tornasse-se Jornalista como o pai, o
“Língua Ferina”, de saudosa memória para muitos e de incontestável alívio para
outros.
Após peregrinar pelas
salas dos políticos, antigos amigos do marido, sua mãe consegue-lhe uma
colocação; Funcionário Público! E não foi difícil ser admitido no antigo jornal
em que seu pai trabalhou. Lá chegou com a expectativa do renascimento das
crônicas inteligentes e mordazes que seu pai fazia, reforço indispensável ao já
decadente periódico. Mas
Atanásio em pouco tempo, revelou-se grande decepção. Seus artigos eram
superficiais, geralmente com enfoques equivocados, sem a “verve” e o traço de
gênio que o “Língua Ferina” por muito tempo imprimiu, fazendo de suas
comentários sociais e políticos, matéria aguardada por admiradores e inimigos.
Demitiu-se antes que fizesse e
passou a viver apenas do seu salário de funcionário público.
Com a morte da genitora, o casarão que já era por demais amplo,
tornou-se monstruoso para as necessidades de Atanásio. Passou a ocupar apenas o andar térreo, onde ficava seu quarto e as
dependências da antiga criada, agora muito velha, que lhe preparava as
refeições e continuava a tratar-lhe como criança, pois tinha sido sua
babá.
Como os “achaques” de sua
velhice o incomodassem, acabou internando-a em um Asilo Assim foi
vivendo rotineiramente Atanásio,
Pontualmente
às sete e meia dava uma ajeitada na gravata e recompunha a vasta cabeleira
negra, legítima herança do pai, no espelho de esplêndido móvel de jacarandá
entalhado, que ficava no hall da entrada. Daqueles que possuem porta chapéus e
local para guarda-chuvas.Foi
neste espelho que notou os primeiros cabelos brancos e rugas no rosto.- “O tempo não
esquece ninguém”, resmungou para si mesmo, ao sair para a repartição
Certa
noite, logo após chegar do trabalho, sentiu aquele vazio no peito que sentira
antes e que nunca conseguira entender. Impulsionado por antigas
lembranças, resolveu ir ao sótão, local que tinha sido preparado por sua mãe
para suas brincadeiras. Lá ficava o quarto de brinquedos, e como o salão de
música, guardava suas melhores lembranças.
A
instalação elétrica desgastada, não respondeu quando acionou o
interruptor. Munido de velho
lampião a querosene, começou a subir os degraus que o levariam ao sótão. Com
o tabuado da escada a estalar sob seus pés e o corrimão de madeira trabalhada
rangendo ao peso de sua mão, foi dirigindo-se lentamente ao seu passado.
A
luz mortiça e amarelada da nervosa chama pouco iluminava, porém, apesar das
décadas passadas, seus passos eram seguros. Afinal, refazia o caminho que
fizera tantas vezes quando criança. Finalmente a porta do quarto apareceu sob a luz oscilante, e com
profundo espanto sentiu o coração disparar como nunca. Nem quando Clara o beijou pela primeira vez, ou quando Helga o fizera gozar
em seu quartinho de rapariga, na “ladeira das putas”.
Foi
com a mão molhada de suor que girou a maçaneta e entrou .De
pronto percebeu os dois grandes “óculos” de vitrô colorido por onde a luz da
Lua penetrava, desenhando formas matizadas e irreais nas paredes. Dali de onde quando criança via seu pai chegar ao fim da tarde, emanava uma atração
irresistível.
Foi se aproximando e de longe lhe chegou à voz grave do pai, chamando
pela mulher para abrir o portão. Através
dele viu a figura delgada e enérgica, com as criadas, de sua mãe dando ordens
em tarefas de jardinagem. Dali podia ver o jardim cuidadosamente tratado, com bancos revestidos de
conchas e pequenas estátuas de mármore espalhadas pelo gramado, que recendia o
perfume de mil flores que o embriagavam., Havia
muita luz, muita cor, as vozes dos criados, o vozeirão do pai, sua mãe cantando
Sertaneja. Alguém dedilhava o
piano. A flauta, o oboé, o violoncelo afinavam numa mistura de acordes
desconexos. Logo começaria o Sarau.
Carros paravam próximos ao
portão. O antigo móvel do hall deveria estar repleto de chapéus, casacos,
guarda-chuvas. As criadas “formigavam” na cozinha preparando refrescos e
salgadinhos.De repente
aquela “zonzeira”. O velho vazio no peito chegava a doer, e Atanásio sentou-se
para não cair. No chão tateou um volume e reconheceu a caixa de seus soldados de
madeira de Exército Prussiano. Apalpando os bonequinhos, trazendo-os o mais
perto do rosto para vê-los melhor, explodiu em um pranto enorme, que lhe
brotava com a força de um rio incontrolável.
Após
alguns dias de ausência ao trabalho, seus colegas de repartição foram até o
casarão. Não obtendo reposta, comunicaram o desaparecimento a Polícia.
A autoridade,
acompanhada de um chaveiro e da velha criada localizada no Asilo, entrou na
casa. Nada
estava faltando, nenhum sinal de arrombamento ou violência,
No sótão, sob olhares
cúmplices do Delegado, a antiga criada tomou para si a caixa dos soldadinhos de
madeira.
-Era o brinquedo que ele mais gostava... Justificou-se com os olhos úmidos.
* * *
Ouvi esta
história de uma velhinha centenária, quando de uma visita a um Asilo, e quando
lhe perguntei sobre o paradeiro de Atanásio, respondeu-me com a voz
desarticulada dos desdentados.-Está
vivo! - E apanhando uma caixa de madeira na cômoda, mostro-me os
soldadinhos.
Neste mundo de plástico e fibras sintéticas, a visão daquelas peças, foi
uma viagem ao passado.
Coloridos, feitos a
mão, jamais repetiam a mesma posição. Armados com fuzil e baionetas, alguns com
sabre em riste, orgulhosamente envergavam o uniforme do Exército Prussiano,
aquele que no capacete tinha uma ponta de lança.Enquanto
extasiado observava a riqueza de detalhes esculpidos na madeira, mostrou-me com
seu indicador nodoso e anquilosado um determinado soldado.
- É
ele!
- Ele
quem?
- O
Atanásio, ele não morreu. Virou soldado para comandar sua tropa. Sempre me
dizia que seria soldado quando crescesse.
Falava
com uma ternura indefinível, única nas pessoas que muito amaram.
Sem dar crédito
ao que a velhinha falava, comecei a examinar o soldadinho que ela indicou.
Realmente
era diferente dos demais. Não estava fardado. Usava paletó e gravata e era de
uma perfeição só vista nas estátuas dos Grandes Mestres.
Mas seria impossível tamanha perfeição em
tão pequenina peça, além do que não era de madeira como os demais. Não consegui
identificar o material de que era feito.
Mas
enfim, lá estava um homem de paletó e gravata, cabelos negros esvoaçantes, com
a espada apontada para frente, em passo largo, como a conclamar o batalhão para
a investida derradeira.
Despedi-me da
velhinha prometendo voltar na semana seguinte. Promessas dessas que fazemos sem
nenhuma intenção de cumprir. Mas não consegui esquecer o soldadinho, nem a
expressão da velhinha quando afirmou:
-
É o Atanásio, ele não morreu...
Por diversas vezes
ao longo daquela semana, procurei afastar aquelas idéias do pensamento. Afinal
o que esperar de uma anciã de cem anos? Cem anos é tempo suficiente para
autorizarmo-nos a dizer qualquer bobagem.
Mas
aquela velhinha, apesar de encarquilhada, de voz quase incompreensível, tinha
sido lúcida e coerente durante toda a narrativa.E quem mais além dela conviveu tanto tempo
com o desaparecido? E
seus olhos? Nunca vi tamanho brilho. Era o olhar dos possessos ou dos sábios,
que já enxergam para além desse mundo.
Bobagem. O Atanásio devia ter dado uma de Quincas Berro D’ Água e,
chateado com a “a mesmice” de sua vidinha, pois o pé no mundo...
Não adiantava. Os argumentos e contra argumentos chocavam-se em minha
cabeça, tirando-me a paz. Afinal, eu tive em minhas mãos a miniatura de um homem, feito de não sei
o que!... Além disso, conhecendo a
história de Atanásio, comecei a formular uma estranha teoria. Não
poderia o Homem sob situações limites, mudar o próprio corpo? Como explicar as
chagas dos devotos que sangram na Sexta Feira da Paixão? Como algumas pessoas
encanecem sob pressão tal qual Jean Val Jan, no romance de Vitor Hugo? E a existência
de lugares mágicos espalhados pelo mundo, como Machu Pichu, Stone Henge, As Pirâmides,
onde estudiosos afirmam que fenômenos inacreditáveis acontecem, quando
devidamente buscados? Sim,
agora me parecia possível. Atanásio que sempre viveu a vida “pelas bordas”, que
nunca ousou com medo de perder, que nunca se envolveu com medo de sofrer, que
se sentiu pequeno diante da vida, impotente ante suas limitações, não poderia
num lugar mágico (e não o são os quartos de brinquedos?) plasmar em seu corpo
físico os tormentos de sua alma? E que melhor local para aliviar seus
sofrimentos que a frente de seus Soldadinhos Prussianos?
Voltei
na semana seguinte ao Asilo, disposto a examinar o soldadinho sob as luzes da
tecnologia. Aquele meu conflito tinha que ter um fim.
A diretora do Asilo, fingindo uma tristeza de “mascara do drama”,
informou-me que a velhinha morrera na noite de da minha visita. Perguntei a quem fora entregue os pertences.
- Estão aqui.
- Deixando escapar certo alívio, por finalmente livrar-se de um entulho. - Não achamos nenhum
familiar.
Era uma sacola de plástico, com poucos e
pobres pertences. Nada da caixa e dos Soldadinhos.
A velha criada levara consigo o segredo de Atanásio.
Salvador,
07 de Dezembro de 1993.
Sávio
Drummond
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