quarta-feira, 18 de julho de 2012

REVISÃO

Devia ter sentido mais a chuva em meu rosto. Tê-la buscado e não ter sido surpreendido por ela. Mas tinha medo de pegar um resfriado. 
Devia ter visto mais o Sol nascer na boemia. Mas ele sempre me encontrou estudando ou trabalhando.
Devia ter sentido mais o cheiro das coisas. O mundo é cheiroso. A vida é cheirosa, mas só percebi isso quando pouco olfato me restava. 
Devia ter beijado mais. A meus pais, a minha esposa, meu irmão, minha filha, meus amigos. Mas estava sempre ocupado. Agora sinto falta dos beijos que não dei.
Devia ter ouvido mais. O mundo vibra em uma frequência harmoniosa como em uma sinfonia Divina. Mas o barulho do trabalho me roubou parte da audição. Hoje até o silêncio parece-me cobrar as notas roubadas.
Devia ter sido mais ocioso. Na ociosidade produz-se mais do que pensamos. Mas estava sempre atarefado para perceber isso. Devia ter visto mais. As coisas mais lindas são invisíveis para nós, que nos acostumamos a olhar, não a ver.
Devia ter tido mais Domingos.  Minha semana sempre teve mais dias que a normal, e nenhum deles era feriado.
Devia ter viajado mais, conhecido mais pessoas e lugares. Há sempre gente e locais para conhecer. Mas estava sempre preocupado em chegar.
Devia ter sido menos ansioso. Pois a vida está sempre “vindo”, e saber esperar é uma arte.
Devia ter esperado menos dos outros. Cada um dá daquilo que tem. E muitos têm muito pouco pra dar.
Devia ter perdoado mais. Hoje tenho tanto perdão a pedir.
Devia ter me arriscado mais. Viver é coisa arriscada, e sempre tive medo de arriscar, com medo de perder.
Devia ter sido menos ambicioso. As coisas realmente importantes, como a amizade, os afetos, e o bem, nos são dadas de graça, mas estive sempre preocupado com o preço das coisas.
Devia ter sido mais verdadeiro. As grandes verdades são ditas de formas simples. Olhe as crianças. Elas falam o que lhes vem ao coração.
Devia ter comido menos sal e açúcar. Sempre adocei ou salguei muito as coisas, em busca de um sabor que acabei escondendo pelo excesso.Devia ter encarado a vida de frente. De nada adiantou “dopar-me”, com falsos calmantes, que apenas “me esconderam” a verdade.
Devia ter me preocupado menos. A cada dia “basta o seu mal”.
Devia ter sido mais curioso. Tudo no mundo” tem um por quê”. Deixei de aprender muita coisa.
Devia ter sido menos orgulhoso. A vaidade nada me acrescentou.
Devia ter feito mais serenatas. As janelas das moças ficaram fechadas para meu canto. 
Devia ter aprendido a tocar um instrumento. A música nos aproxima dos anjos.
Devia ter apreciado mais o luar e o por do Sol. São lindos e Deus não cobra nada por eles.
Devia ter aprendido inglês. Os livros seriam menos misteriosos.
Devia ter aprendido a orar. Através da oração falamos com Deus.
Devia ter mais “cicatrizes”.  A pele imaculada mostra apenas uma vida enfadonha.
Devia ter sido uma pessoa melhor. A sensação de “dever não cumprido”, me esmaga.
Devia ter aprendido mais. Vou ter que repetir de ano.


Salvador, 26 de Junho de 2012.
Sávio Drummond.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O VENTO


Um dos personagens, mais “perturbados” que conheci, foi o vento. 
Aventureiro, conhece o mundo inteiro, pois já deu várias voltas ao globo.
Prestativo, seca as roupas do varal, refresca-nos, agita as folhas das árvores e a palha dos coqueiros, dando-nos poesia de graça.
Da Grécia antiga o Deus Éolo soprando forte, esfuma as velas dos saveiros, levando-os a lugares que só atingimos com o pensamento. Continentes foram descobertos, pelo Homem dito civilizado, graças à força de seu sopro, ao movimentar as Caravelas.
Ele também movia às pás dos Moinhos de Vento, que deram lugar as atuais hélices de altas torres, para geração de energia elétrica.
O Homem muito deve ao vento. Graças a ele, empinava as arraias (pipa, papagaio) quando criança, e era horrível quando ele as levava para diante do Sol. Não dava para ver nada!
À noite, soprando nas frestas da janela, parecia um lamento e muitas vezes me roubava o sono.
Ousado e brincalhão, levanta as saias das mulheres, provocando gritos de susto, e as corando de vergonha. Um devasso esse vento, um horror! 
Ele também “empurra “as nuvens, no azul do céu, e assim participa da obra-prima que Deus nos dá de graça, todo entardecer e amanhecer, quadro que nem os Grandes Mestres sonharam em pintar, e ninguém repara...
O vento traquino, “dando uma” de poeta, também agitou os cabelos negros de minha primeira namorada, e fez com que um perfume de sândalo me embriagasse. Obrigado amigo! 
Quando adolescente, costumava ficar juntamente com um grupo de desocupados, no calçadão do Edifício Sulacap, esquina da Ladeira de São Bento com a Avenida Sete. Ante nossos olhos a Praça Castro Alves, o monumento onde no alto o Poeta dos Escravos, com a mão direita em riste, declama seus versos, o mar azul da Cidade da Bahia e o cinza do perfil das ilhas, do outro lado da baía.
Todo dia, as 17:00 hs, no verão, o vento, “saído do nada” levantava as saias das moças, que costumavam ir com as mães assistirem a missa das cinco na Igreja de São Bento.
Era moda na época, uma saia rodada, chamada Balão, que muito facilitava o trabalho do depravado. Ficávamos apostando cigarro, para ver quem acertava a cor das calcinhas das moças.
Preta e branca eram as preferidas, e um colega nosso, alto, magro com óculos fundo de garrafa, que não errava nunca, acertou certa tarde a improvável cor de uma; Amarela!
Apelidaram-no, a partir desta data de Calçolão!
Certa feita uma moça passou, acompanhada da mãe e o vento devasso, “rápido como quem rouba”, levantou sua saia até o pescoço.
Para surpresa nossa a coitada, que devia estar com algum problema de alergia, estava sem calcinha e depilada! Calçolão não “perdeu tempo”, e exclamou:
- Essa eu não acertaria nunca. Mas, parabéns moça, passou no vestibular!
Até o poeta, no alto do seu “modorrento” pedestal, arriscou uma olhadela de “canto de olho”.
Isso aconteceu há 40 anos, e outro dia vi um humorista contar na televisão, como piada!
Mas é verdade. Calçolão está de prova, e eu estava lá. Juro!

Salvador, 16 de maio de 2012                                                                                                                                                                                            Sávio Drummond.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

MEMÓRIAS DO BORDÉU

Pensei muito se deveria escrever este conto.
Mas, se o escritor alagoano Graciliano Ramos escreveu Memórias do Cárcere,onde narra suas memórias na prisão durante a Ditadura de Getúlio Vargas, porque não posso escrever sobre fatos acontecidos nos bordéis? É verdade que entre eu e Graciliano vai uma distancia muito grande.
Distância que usa Fardão da Academia Brasileira de Letras e se expressa em livros de caras brochuras.Quanto a mim, no máximo em folhetos misturados aos Cordéis.
Também, o colombiano Gabriel Garcia Marques, premio Nobel de Literatura em 1982, escreveu Memória de Minhas Putas Tristes. Porque eu não posso?
 A 1º memória retrocede a 1888 quando Vincent Van Gogh (1853 - 1890),genial pintor holandês, dividiu o aluguel com o artista francês Paul Gougain (1848 - 1903), na cidade de Arles, no sul da França. Em busca de luz, o pintor holandês foi morar em região mais equatorial e por desentendimento com o também pintor Paul Gougain, quis agredi-lo, por discordarem a respeito do Movimento Impressionista batizado por Vincent, de Casa Amarela, em alusão ao sobrado em que moraram por dois meses.
Outros dizem que Van Gogh, foi a um bordel, e emocionado com a história que lhe contou uma prostituta, de que estava naquela vida para alimentar os filhos, acabou dando todo seu dinheiro a ela.Contou a Paul Gougain o que tinha feito. O francês foi verificar a veracidade da história ou se era mais um devaneio do companheiro sonhador.Relatou a Van Gogh, que a mulher o enganara e que “transou” com ela a noite toda. Alucinado, partiu pra cima do francês, que muito mais forte e corpulento, derrubou-o com um safanão e retirou-se. O holandês então, por ter sido enganado pela mulher e por ter sido inferiorizado fisicamente, com a navalha de fazer barba, corta a própria orelha, punindo-se.
 Era o ano de 1888 e estava com 36 anos. Gougain foi pintar as morenas das ilhas francesas do Pacífico Norte, principalmente em Papete, capital do Thaití, e morreu aos 55 anos de Sífilis, sendo enterrado em Dominica, nas ilhas Marquesas.
Um conhecido meu, foi a um Bordel chamado Buraco Doce.Lá encontrou uma colega nossa, que estudava o Científico de dia e era “Garota de Programa” à noite. Assim custeava seus estudos e a pensão onde morava. Hoje é médica famosa. 
Porém, entrou para os anais da literatura popular o discurso que um conhecido fez à beira do caixão, em um velório em um “puteiro” do Pelourinho. Um conhecido farrista dos anos 50, Aristeu Carrasco Dellos Chíbius (tem cada sobrenome estrangeiro...), foi encontrado morto no quartinho que alugava no Pelô. Devido aos antecedentes de cachaceiro, o médico assinou o Atestado de Óbito como; “Complicações decorrentes de Cirrose Hepática”.Os “amigos de copo” se quotizaram e compraram um caixão, e seus conhecidos, personagens das noites baianas, bêbados e prostitutas foram velar-lhe em um Bordel no Pelourinho, chamado Anjo Azul.Como a receptividade foi boa, num instante apareceu Violão, Cavaquinho,Timbau e até uma Flauta Transversal.
O velório cumpria o desejo do falecido, que pediu para ser velado pelos amigos, com muito samba e cachaça. Nada de lágrimas. Também não deixou viúva ou filhos que o pranteassem.Os agiotas e bancos, a quem devia “se lenharam”. Não restou ninguém para pagar as dívidas.
Em meio ao “sambão”, ou melhor, velório, o repentista famoso, Romeu do Amor Divino, admirado por sua capacidade de improvisar, começou:


Quem morreu , morreu.
Antes ele do que eu.Quem morreu, morreu,
Antes ele do que eu.
Aristeu, Aristeu.
Você se fodeu. . .

Romeu Bahia dos Santos, o mais culto do grupo, e que se saiba, nunca riu, foi escolhido pelo estranho grupo para dizer algumas palavras de despedida.
- Estamos aqui reunidos, com os olhos rasos d´água para despedirmos-nos de nosso amigo Aristeu, o popular “Copo Furado”... 
A prostituta Maria Tanajura fez rima com voz de “frete”:
- Romeu, seu cacete é meu!
Fazendo de conta que não tinha ouvido, continuou Romeu.- Neste momento solene, pranteamos nosso amigo, que faleceu”... 
E como cachaça e velório não combinam, exclamaram: 
- Quem faleceu se fodeu, antes ele do que eu! 
O companheiro do lado de Aristeu, muito contrito, chapéu na mão, intercede:
- Até você Chico Navalhada...
O Sr. Francisco das Virgens, que ostentava enorme cicatriz de antiga navalha no rosto, e que detestava o apelido, sentindo-se ofendido, retrucou:
- Navalhada é a puta que te pariu!
Era o que faltava para a pancadaria “comer solta”...Parecia a letra de certa canção que diz: “’A orquestra tocando alto pra Polícia não ouvir, quem estava fora não entrava e quem estava dentro não saía”...
Mas apesar do barulho do conjunto, ouviram e chamaram a Polícia.
O soldado Jamanta, legítimo representante das terras baianas, crioulo de dois metros de altura, juntamente com seus “meganhas”, acabou com a briga, batendo em “todo mundo”, e a todos levou para a delegacia, inclusive o defunto com o caixão, já meio escangalhado, pois no tumulto caíram sobre ele.
O delegado fez o B.O. e manteve todos na delegacia, até que os ”vapores do álcool” desaparecessem.No outro dia soltou os brigões e o defunto.
Como castigo tiveram que carregar o caixão de volta até o Pelô.
Quando já estavam às portas do Anjo Azul, alguém tropeçou nas centenárias pedras “cabeça de negro”, e foi ao chão juntamente com o caixão que se espatifou definitivamente.
Será que o Copo Furado se incomoda se for enterrado em uma rede?
- É melhor em uma rede do que sem nada. Além do quê, defunto não tem vontade. Não há mais dinheiro, nem tempo, pois o finado já “ta” cheirando mal.
E assim, finalmente, Aristeu foi enterrado, sob belos “pontos” de Candomblé, entoados por Mães de Santo e Ialorixás.

Em sua lápide, apareceu misteriosamente (terá sido o Romeu?) escrito:

Finalmente aqui descansa Aristeu.
Cachaceiro, mulherengo e putanheiro.
Deixou saudades o amigo meu, 
E as prostitutas choram o companheiro.



Salvador, 08 de Abril de2012





Sávio Drummond.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

A ENFERNEIRA


Tive uma Técnica de Enfermagem, como auxiliar em um  Posto de Urgências em que trabalhei.
Muito religiosa, só andava dizendo; -“Sangue de Cristo tem poder!” 
Gostava muito de música e com um “ouvido apurado”, estava aprendendo auto - didaticamente, através de um método, a tocar flauta doce.
Depois do almoço, eu querendo descansar e a “Enferneira” tocando a flautinha: 
-Fuim, Fuem...Fuim, Fuem.
Quem já passou por “tortura” semelhante, sabe que só existe uma coisa pior que flauta mal tocada. Violino mal tocado! 
Enquanto outro colega, “guarnecia o forte”, eu procurava, buscava, necessitava descansar.
Mas a flautinha impiedosa continuava seu “berreiro” cruel:
-Fuim, Fuem...Fuim, Fuem ... 
Como ela era Evangélica, resolvi usar de argumentos Bíblicos para fazê-la parar:
- Irmã, você conhece aquela passagem do Novo Testamento que fala de Jesus no Monte das Oliveiras, e Zaqueu, o cobrador de impostos?
Mostrando que a “isca” funcionara:
- Conheço, mas em se tratando do Senhor, qual se refere?
- Madrugada, e Jesus, sentado em uma pedra, meditava.   Seus discípulos sentados no chão aguardam. O tempo passa e eles começam a adormecer. Para espantar o sono, Zaqueu, um dos seus apóstolos, começa a tocar uma flautinha, assim como você. barulho chega até Jesus, que interroga:
- Quem toca este instrumento? 
Zaqueu percebendo que estava sendo inconveniente, prosta-se ante seus pés e exclama:
- Senhor desculpa-me. Dizei uma só palavra e jogarei às chamas, este maldito instrumento.
Jesus, emocionado com a atitude do baixinho Zaqueu, levanta-o e segurando em seus ombros, diz:
- Zaqueu, filho meu, humildade como a sua, meu olho nunca viu. Mas vá tocar mal esta flauta, na “puta que te pariu”!
De outra feita, de madrugada, estava no quarto, quando a “enferneira”, entra esbaforida, gritando;
-Doutor, um homem ensanguentado, como uma faca na mão, entrou no posto gritando que quer sangue, quero sangue! Nisso o homem, acompanhando-a entra também no quarto:- Eu quero sangue, preciso de sangue!  
A “enferneira” tranca-se no banheiro, gritando; -“Sangue de Cristo tem poder. Valha-me Nosso Senhor Jesus Cristo. Pelas sete chagas de Cristo, acudam-me”! 
Calmamente procuro atender ao homem, enquanto “estudo” por onde fugir.
O homem ensanguentado, na verdade fora ferido, em uma briga de faca, e pedia que lhe dessem sangue, pois achava que precisava de uma transfusão... 
Soube há pouco que a “Enferneira”, aposentou-se, estudou e hoje toca harpa e está ganhando muito bem como professora de música.
                                                                                                           Salvador, Fevereiro de 2012.
Sávio Drummond.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A DESCANTADA


Fim de tarde de sábado. Dirije-se à barraca de praia perto de sua casa a fim de “curtir” a hora mais agradável do dia. Nela, a luz é ainda suficiente para destacar cores e contrastes sem arder na pele. Lá chegando, procura uma mesa, enquanto o vulto atarefado e grisalho do proprietário acena-lhe num cumprimento cordial. 
É uma tarde magnífica e começa a imaginar como seriam estas praias na época do descobrimento.
Com o pensamento viajando, chega a ver algumas caravelas de panos esfumados que se aproximam, quando dois vultos saídos do mar tiram-no desses devaneios. 
São duas belas jovens que vem em sua direção. A morena então é perfeita, com suas curvas mal cobertas por sumário biquíni, chama a atenção dos poucos presentes. Com ares indiferentes, próprios das mulheres acostumadas com os olhares mais ardentes, sentam-se na mesa em frente à sua. A morena de costas para ele e de frente ao mar. Sua acompanhante em posição inversa.
 A pele morena tem uma tonalidade acobreada pelo sol de muitas praias. A cabeleira cacheada chega-lhe à cintura com o peso d’água e esta, escorrendo em milhares de gotinhas, brilham ao sol poente, definindo-lhe os contornos como mágico neon. Fina penugem dourada arrepia-se ao frio do fim da tarde.
Lembra-se do ditado; “Se Deus fez algo melhor que a mulher, guardou pra Ele”. Discorda. Naquele momento têm a certeza que o Criador, num profundo gesto de amor à sua imagem e semelhança, deu-a para nós, míseros homens...
Viajando mais uma vez, não percebe que está com uma cara ridícula, com o olhar devorando o vulto moreno á sua frente, boquiaberto, sedento. 
A mímica de sua acompanhante chama-lhe a atenção. Mostra certamente à jovem que conquistara mais um admirador. Dissimuladamente, como se procurasse  qualquer coisa, em qualquer lugar, olha para os lados e finalmente, por cima do ombro, para ele.
E se não bastasse tudo aquilo a danada ainda tem os olhos claros! Subitamente formam-se em seu pensamento uns versinhos, daqueles que já vem prontos, sem direito a corrigir vírgula ou ponto. E no tampo da mesa deixa-os: 
Menina dos olhos d’água,
Olha um pouquinho pra mim.
Mata esta sede morena,
Que dói como coisa ruim. 
Das muitas mortes malvada,
De uma sempre temi.
Morrer de morte jurada,
Por teus olhos, fugindo de mim.

Escreve estes versos da forma mais acintosa possível, com letras grandes e de imprensa, na esperança de que procurem lê-los após afastar-se.  

Com esta estratégia, vai ao encontro do barraqueiro, onde encontra alguns amigos recém chegados e também impressionados com a beleza da jovem.Conta-lhes o que tinha feito, e aos poucos, um clima de expectativa toma conta do ambiente. As moças mudariam de mesa para lerem os versos? A cerveja rola solta e algumas apostas começam a serem feitas, quando, pretextando um incômodo que o Sol possa estar causando, levantam-se e procuram o abrigo da sombra do coqueiral que a esta altura derrama-se sobre a mesa que ocupou recentemente.   Mal chegando não conseguem conter a curiosidade, e, “as favas” com a discrição, inclinam-se sobre a mesa procurando  ler o que lá se encontrava. Entre taquicardia e sudorese nota que as duas conversam, certamente comentando os versos, quando de repente a morena vira-se para ele, e seu sorriso acerta-o devastador como um míssil.-Vai lá rapaz! O mais difícil você conseguiu! Cutucam-lhe às costas os amigos, que depositam nele, representante de última hora da “macheza local”, os desejos transbordantes de todos. Enche o peito e a passos decididos vai em direção a jovem. No meio do caminho quebra sua trajetória em 90° e toma o rumo de casa.Uma sonora vaia e alguns adjetivos nada lisonjeiros espocam da barraca.Cabeça baixa, mãos nos bolsos, pensa na negação de Machado de Assis ao ditado popular; “A ocasião faz o roubo. O ladrão já existia.” Logo ao chegar procura escrever os versinhos antes que os esqueça, e nem bem os termina, uma voz inquire às suas costas:  - Pra quem são estes versos? É sua filha adolescente, também morena, que pergunta curiosa. -São pra você. Tome-os! Lê-os atentamente e um tanto decepcionada, discorda.- Mas eu não tenho os olhos claros!- Licença poética filha, não tem a menor importância. 

Sávio Drummond
Maio, 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

MALUCO BELEZA


Chamava-se Raul dos Santos Seixas, e nasceu em Salvador em 28 de Junho de 1945.
Ano em que os americanos jogaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Raul nesse ano “explodia” para a vida.
-“Hoje estão comendo bacalhau, no quarto em que nasci”, referindo-se ao Restaurante Português, que foi construído na sua antiga casa.
Da geração de Caetano, Gil, Maria Betânia, Gal Costa, não aderiu ao Tropicalismo, pois fora apresentado ao Rock and Roll pelos vizinhos, filhos de americanos, que trabalhavam no Consulado Americano na Bahia. Desde cedo se apaixonou pelo Rock e aos 14 anos fundou um Fã Clube de Elvis Presley.
Aos 15 anos ganha dos pais um violão e aprende a tocar sozinho.
Em 1962, aos 17 anos, em pleno movimento da Bossa Nova, trocou sua lambreta por dois violões e um contrabaixo e monta sua 1º banda; Os Relâmpagos do Rock, mudando o nome posteriormente para Raulzito e seus Panteras. 
Suas principais influências foram Elvis Presley, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry e o Blue dos negros do sul dos Estados Unidos.
Apesar de não se alinhar com o movimento da Bossa Nova, sofreu influência de Luís Gonzaga e Repentistas.
Em 1967 a convite de Jerry Adriane o grupo mudou-se para o Rio de Janeiro e depois de apresentações e lançamentos fracassados, se desfez.
Raul volta a Salvador e em 1972, no VII Festival Internacional da Canção da Rede Globo, com a música Let me sing, let me sing, cantada por ele mesmo e Eu sou eu, Nicurí é o Diabo, defendida por Lena Rios, o país inteiro conheceu e cantou com Raul Seixas.
Os pais de Raul obrigaram-no a fazer análise por achá-lo esquisito: Brilhantina no cabelo, “pimpão” a “la Elvis Presley”, camisas coloridas com blusão de couro, não era “coisa de gente normal”.
Devido ao movimento nacionalista da Bossa Nova e Jovem Guarda,  Raul, cantando Rock, por vezes em Inglês, é visto como americanizado, entreguista e alienado. A juventude baiana, porém, o aplaudia no auditório do Cine Roma.
Raul conhece a norte- americana Edith Wisner, e apaixona-se. O pai da moça, pastor protestante, não aprova o namoro. Raul, para ganhar a confiança do futuro sogro, presta vestibular para Direito, Filosofia e Psicologia, e passa nas 3 entre os primeiros.Então diz ao pastor:
-“Viu como é fácil, ser burro”?
Em Novembro de 1970 nasce sua filha 1º filha, Simone.
Raul foi casado com Edith Wisner com quem teve Simone, Glória Vasques que lhe deu Scarlet, Tânia Mena Barreto, com quem não teve filhos, Ângela Costa (Kika) com quem teve Vivian e Lena Coutinho,  também sem filhos.
Em 1971 Raul compõe para Jerry Adriane, Renato e seus Blue Caps, Tonnie e Frankie, Trio Ternura, Diana e outros artistas da Jovem Guarda.
Em 1972, Raul se interessa por um artigo sobre Discos Voadores e resolve conhecer o autor. Era Paulo Coelho. Desse encontro surgiu a amizade e parceria.
Em 1973, lança o LP Krig-Há Bandolo!  - que quer dizer “O inimigo vem aí”, considerado seu melhor LP. Músicas como Metamorfose Ambulante, Ouro do Tolo e Mosca na Sopa, são deste LP.
Raul funda a Sociedade Alternativa, onde o maior princípio é “Faze o que tu queres, pois é tudo da Lei”.
A Sociedade Alternativa, não agradou ao Regime Militar e perseguido e preso pelo D.O.P.S. (Departamento de Ordem Política e Social) e deram-lhes, a ele e Paulo Coelho, um prazo de 24 horas para deixar o país. Partem para os estados Unidos, onde segundo Raul, passou 3 dias com John Lennon, onde ambos mostraram suas músicas.
Voltam do exílio no ano seguinte (1974) devido ao sucesso do LP Gita, disco de maior sucesso, ganhando um Disco de Ouro. Grava Novo Eon e Há Dez Mil Anos Atrás, últimos disco em parceria com Paulo Coelho. 
No início da Década de 80, Raul começou a apresentar problemas de saúde (Hepatite Alcoólica) devido ao consumo exagerado de bebidas.
No final da Década de 80 Raul, apresentou-se no Clube Recreativo Plataformense ( Subúrbio Ferroviário), e o público o vaiou e jogando objetos no palco, o expulsou, pois acharam que era um cover. Estava cambaleante e com o rosto inchado, estigma dos alcoólatras de longa duração.
Há partir de 1988, Raul começou a gravar e excursionar com Marcelo Nova, irreverente líder e vocalista da banda Camisa de Vênus. Certa feita fomos eu e meu irmão, buscar Marcelo (nosso primo) no Grande Hotel da Barra, para levá-lo para uma apresentação. Um homem vestido todo de preto, botas de couro de cano alto, chapéu de cowboy de “aba reta”, óculos escuro (era noite) entrou no carro, após nos cumprimentar. Era o Maluco Beleza!
Em 21 de Agosto de 1989, dois dias após o lançamento do disco Panela do Diabo, Raul Seixas morre de Ataque Cardíaco, em virtude de problemas com a bebida.
Raul Seixas foi um homem sensível e preocupado com o mundo e as pessoas. A realidade, por certo, era muito cruel, e fugia dela através das drogas e do álcool que o mataram aos 44 anos.

Salvador, 26 de janeiro de 2012. 
Sávio Drummond.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O HOMEM QUE ENCOLHEU


Deram-lhe o nome de Atanásio ao nascer. Gosto do pai, homem de letras e livros, que já entrado em anos, exultou com o nascimento do primogênito que trouxera alegria ao casarão em que viviam. 
 - Nome de Papa. Vai atanazar a vida de muita gente! Propalava o velho intelectual, jornalista talentoso, admirado por muitos e temido por outros mais, com passagem na política e fortes tendências esquerdistas.   
No velho casarão, herança dos avôs, arrodeado da mais fina flor da intelectualidade local, crescia
Saraus líteromusicais, comuns à sociedade elitizada, ali eram frequentes.  No salão de sólido tabuado, com pinturas de faunos com harpas e flautas, espalhado pelas paredes ouviu as primeiras notas e versos, entoados coma fluência e sentimento dos poetas e artistas que frequentavam sua casa.
No salão das refeições, com paredes igualmente pintadas com motivos florais, onde Ceres derramava os primeiros frutos e flores da primavera, a pequena família reunia-se em torno de grande mesa de madeira de lei.
Sua mãe desdobrava-se em mimos, dedicando-lhe o extremado amor que só as mães são capazes de dar, e que ao primeiro espirro, metia-o debaixo das cobertas, receosa dos pleurises e basites, tão comumente diagnosticadas pelos doutos da época.
Equilibrando-se entre a meiguice da mãe e a disciplina paterna, Atanásio crescia. Sempre entre os melhores da turma, não se permitia notas baixas, pois, a terna cobrança dos genitores, atingindo-o com um simples olhar, obrigavam-no a esforçar-se por estar entre os primeiros.
No Colégio dos  Padres, onde estudava, tirava as melhores notas, mas era visível que estas eram resultado de grande esforço, e não fruto de uma inteligência privilegiada, como julgavam os pais.  Na adolescência namorou Clara, filha também única de abastada família que morava na mesma rua. Pequenina, com pele de Jasmim, e olhos transparentes como manhãs de verão, era a imagem da fragilidade
Em seu sorriso de luz, acariciava-lhe o rosto com seus dedos longos e mãos macias, onde finas veias azuis transpareciam, enquanto falava palavras apaixonadas num timbre de águas puras que brotam do mais fundo da terra. 
Assim era Clara. Parecia a Santa do altar do colégio. Tão menina e tão segura de si. Muito mais forte que sua débil figura
Numa manhã de inverno despediu-se de Clara, que juntamente com a família mudava-se para o Sul, em busca de tratamento para a enfermidade que lhe corroia os pulmõesRecostada em uma almofada, mais transparentes que nunca, sorriu-lhe pela última vez com seus lábios ligeiramente azulados, enquanto o Citroën preto subia a ladeira. Nunca mais teve notícias dela. Não ficou triste. Apenas uma sensação de vazio no peito que nunca sentira antes e que não conseguia entender... 
Pouco depois lhe morreu o pai. Permaneceu todo tempo ao lado do caixão, olhos fixos no rosto magro de pele clara e vasta cabeleira ainda incrivelmente negra, e pensava como parecia ridículo um rosto tão viril arrodeado de flores. Por vezes sentiu ímpetos de arrancar todas aquelas flores, mas apenas ficou lá, com aquele vazio cada vez maior e que não conseguia entender...
Com a morte do genitor, muitas mudanças aconteceram no casarão.Com a modesta pensão que lhe deixou o marido, sua mãe teve que dispensar os criados, ficando apenas aquela que viera junto com seu casamento e as bagagens, e que a conhecia desde criança Os Saraus tornaram-se raros e, por fim, não mais aconteciam.
Onde andaria Godofredo com seu chapéu côco e seus poemas líricos? Marieta, versada em francês, única jornalista da época, onde andaria? Emília e seus dedos mágicos que do marfim do piano, colhia o som cristalino de Clair de Lune? Figueroa e sua flauta transversal, por onde derramaria suas dores e seus chorinhos?
Por fim trancaram a sala de música com tudo que lá havia. O piano, a harpa, o violoncelo, como em uma tumba de Faraó, para que séculos mais tarde voltassem a serem vistos por olhos curiosos, que se admirariam das formas, mas nunca sentiriam que naquelas paredes ainda vibravam os sons de Liszt, Debussy, Chopin, Garoto, que em noitadas alegres encheram de emoção o casarão e a rua inteira.
Com os colegas da faculdade conheceu o amor carnal. Helga, uma polaca de lábios fortemente tingidos de carmim, que lhe atestava a habilidade na arte da felação e preferida pela estudantada, iniciou-lhe nas artes do amor. Arte? Não para Atanásio a vida não tinha arte nem amor. Dispunha de suas companhias femininas como de veículos para suas necessidades. Afinal elas estavam lá para isso. 
Muitos colegas seus, apaixonados, embriagavam-se. Porres homéricos e serenatas históricas derramaram-se pelas ladeiras, embaladas pelas paixões daqueles corações enamorados. Atanásio apenas carregava o violão.Com muito esforço sua mãe conseguiu custear-lhe os estudos até a formatura. 
Podia faltar tudo em casa, contanto que Atanásio tornasse-se Jornalista como o pai, o “Língua Ferina”, de saudosa memória para muitos e de incontestável alívio para outros.
Após peregrinar pelas salas dos políticos, antigos amigos do marido, sua mãe consegue-lhe uma colocação; Funcionário Público! E não foi difícil ser admitido no antigo jornal em que seu pai trabalhou. Lá chegou com a expectativa do renascimento das crônicas inteligentes e mordazes que seu pai fazia, reforço indispensável ao já decadente periódico. Mas Atanásio em pouco tempo, revelou-se grande decepção. Seus artigos eram superficiais, geralmente com enfoques equivocados, sem a “verve” e o traço de gênio que o “Língua Ferina” por muito tempo imprimiu, fazendo de suas comentários sociais e políticos, matéria aguardada por admiradores e inimigos.
Demitiu-se antes que  fizesse e passou a viver apenas do seu salário de funcionário público.
Com a morte da genitora, o casarão que já era por demais amplo, tornou-se monstruoso para as necessidades de Atanásio. Passou a ocupar apenas o andar térreo, onde ficava seu quarto e as dependências da antiga criada, agora muito velha, que lhe preparava as refeições e continuava a tratar-lhe como criança, pois tinha sido sua babá. 
Como os “achaques” de sua velhice o incomodassem, acabou internando-a em um Asilo Assim foi vivendo rotineiramente Atanásio,
Pontualmente às sete e meia dava uma ajeitada na gravata e recompunha a vasta cabeleira negra, legítima herança do pai, no espelho de esplêndido móvel de jacarandá entalhado, que ficava no hall da entrada. Daqueles que possuem porta chapéus e local para guarda-chuvas.Foi neste espelho que notou os primeiros cabelos brancos e rugas no rosto.- “O tempo não esquece ninguém”, resmungou para si mesmo, ao sair para a repartição 
Certa noite, logo após chegar do trabalho, sentiu aquele vazio no peito que sentira antes e que nunca conseguira entender. Impulsionado por antigas lembranças, resolveu ir ao sótão, local que tinha sido preparado por sua mãe para suas brincadeiras. Lá ficava o quarto de brinquedos, e como o salão de música, guardava suas melhores lembranças.
A instalação elétrica desgastada, não respondeu quando acionou o interruptor. Munido de velho lampião a querosene, começou a subir os degraus que o levariam ao sótão.                                                                                                                Com o tabuado da escada a estalar sob seus pés e o corrimão de madeira trabalhada rangendo ao peso de sua mão, foi dirigindo-se lentamente ao seu passado. 
A luz mortiça e amarelada da nervosa chama pouco iluminava, porém, apesar das décadas passadas, seus passos eram seguros. Afinal, refazia o caminho que fizera tantas vezes quando criança. Finalmente a porta do quarto apareceu sob a luz oscilante, e com profundo espanto sentiu o coração disparar como nunca.  Nem quando Clara o beijou pela primeira vez, ou quando Helga o fizera gozar em seu quartinho de rapariga, na “ladeira das putas”. 
Foi com a mão molhada de suor que girou a maçaneta e entrou .De pronto percebeu os dois grandes “óculos” de vitrô colorido por onde a luz da Lua penetrava, desenhando formas matizadas e irreais nas paredes.  Dali de onde quando criança via seu pai chegar ao fim da tarde, emanava uma atração irresistível.
Foi se aproximando e de longe lhe chegou à voz grave do pai, chamando pela mulher para abrir o portão.  Através dele viu a figura delgada e enérgica, com as criadas, de sua mãe dando ordens em tarefas de jardinagem. Dali podia ver o jardim cuidadosamente tratado, com bancos revestidos de conchas e pequenas estátuas de mármore espalhadas pelo gramado, que recendia o perfume de mil flores que o embriagavam., Havia muita luz, muita cor, as vozes dos criados, o vozeirão do pai, sua mãe cantando Sertaneja. Alguém dedilhava o piano. A flauta, o oboé, o violoncelo afinavam numa mistura de acordes desconexos. Logo começaria o Sarau. 
Carros paravam próximos ao portão. O antigo móvel do hall deveria estar repleto de chapéus, casacos, guarda-chuvas. As criadas “formigavam” na cozinha preparando refrescos e salgadinhos.De repente aquela “zonzeira”. O velho vazio no peito chegava a doer, e Atanásio sentou-se para não cair. No chão tateou um volume e reconheceu a caixa de seus soldados de madeira de Exército Prussiano. Apalpando os bonequinhos, trazendo-os o mais perto do rosto para vê-los melhor, explodiu em um pranto enorme, que lhe brotava com a força de um rio incontrolável. 
Após alguns dias de ausência ao trabalho, seus colegas de repartição foram até o casarão. Não obtendo reposta, comunicaram o desaparecimento a Polícia.
A autoridade, acompanhada de um chaveiro e da velha criada localizada no Asilo, entrou na casa. Nada estava faltando, nenhum sinal de arrombamento ou violência,
No sótão, sob olhares cúmplices do Delegado, a antiga criada tomou para si a caixa dos soldadinhos de madeira.
-Era o brinquedo que ele mais gostava...  Justificou-se com os olhos úmidos.

*      *    *

Ouvi esta história de uma velhinha centenária, quando de uma visita a um Asilo, e quando lhe perguntei sobre o paradeiro de Atanásio, respondeu-me com a voz desarticulada dos desdentados.-Está vivo! - E apanhando uma caixa de madeira na cômoda, mostro-me os soldadinhos.
Neste mundo de plástico e fibras sintéticas, a visão daquelas peças, foi uma viagem ao passado.
Coloridos, feitos a mão, jamais repetiam a mesma posição. Armados com fuzil e baionetas, alguns com sabre em riste, orgulhosamente envergavam o uniforme do Exército Prussiano, aquele que no capacete tinha uma ponta de lança.Enquanto extasiado observava a riqueza de detalhes esculpidos na madeira, mostrou-me com seu indicador nodoso e anquilosado um determinado soldado.
- É ele! 
 - Ele quem?
- O Atanásio, ele não morreu. Virou soldado para comandar sua tropa. Sempre me dizia que seria soldado quando crescesse.
Falava com uma ternura indefinível, única nas pessoas que muito amaram.
Sem dar crédito ao que a velhinha falava, comecei a examinar o soldadinho que ela indicou.
Realmente era diferente dos demais. Não estava fardado. Usava paletó e gravata e era de uma perfeição só vista nas estátuas dos Grandes Mestres.
Mas seria impossível tamanha perfeição em tão pequenina peça, além do que não era de madeira como os demais. Não consegui identificar o material de que era feito. 
Mas enfim, lá estava um homem de paletó e gravata, cabelos negros esvoaçantes, com a espada apontada para frente, em passo largo, como a conclamar o batalhão para a investida derradeira.
Despedi-me da velhinha prometendo voltar na semana seguinte. Promessas dessas que fazemos sem nenhuma intenção de cumprir. Mas não consegui esquecer o soldadinho, nem a expressão da velhinha quando afirmou:
- É o Atanásio, ele não morreu...
Por diversas vezes ao longo daquela semana, procurei afastar aquelas idéias do pensamento. Afinal o que esperar de uma anciã de cem anos? Cem anos é tempo suficiente para autorizarmo-nos a dizer qualquer bobagem. 
Mas aquela velhinha, apesar de encarquilhada, de voz quase incompreensível, tinha sido lúcida e coerente durante toda a narrativa.E quem mais além dela conviveu tanto tempo com o desaparecido? E seus olhos? Nunca vi tamanho brilho. Era o olhar dos possessos ou dos sábios, que já enxergam para além desse mundo. 
Bobagem. O Atanásio devia ter dado uma de Quincas Berro D’ Água e, chateado com a “a mesmice” de sua vidinha, pois o pé no mundo... 
 Não adiantava. Os argumentos e contra argumentos chocavam-se em minha cabeça, tirando-me a paz.  Afinal, eu tive em minhas mãos a miniatura de um homem, feito de não sei o que!...  Além disso, conhecendo a história de Atanásio, comecei a formular uma estranha teoria. Não poderia o Homem sob situações limites, mudar o próprio corpo? Como explicar as chagas dos devotos que sangram na Sexta Feira da Paixão? Como algumas pessoas encanecem sob pressão tal qual Jean Val  Jan, no romance de Vitor Hugo? E a existência de lugares mágicos espalhados pelo mundo, como Machu Pichu, Stone Henge, As Pirâmides, onde estudiosos afirmam que fenômenos inacreditáveis acontecem, quando devidamente buscados? Sim, agora me parecia possível. Atanásio que sempre viveu a vida “pelas bordas”, que nunca ousou com medo de perder, que nunca se envolveu com medo de sofrer, que se sentiu pequeno diante da vida, impotente ante suas limitações, não poderia num lugar mágico (e não o são os quartos de brinquedos?) plasmar em seu corpo físico os tormentos de sua alma? E que melhor local para aliviar seus sofrimentos que a frente de seus Soldadinhos Prussianos? 
Voltei na semana seguinte ao Asilo, disposto a examinar o soldadinho sob as luzes da tecnologia. Aquele meu conflito tinha que ter um fim.
A diretora do Asilo, fingindo uma tristeza de “mascara do drama”, informou-me que a velhinha morrera na noite de da minha visita.  Perguntei a quem fora entregue os pertences.
 - Estão aqui. - Deixando escapar certo alívio, por finalmente livrar-se de um entulho. - Não achamos nenhum familiar.
Era uma sacola de plástico, com poucos e pobres pertences. Nada da caixa e dos Soldadinhos.
A velha criada levara consigo o segredo de Atanásio.                                                                                                                                                                                                                      
                                                                                                                                                                                                                                                 



                                                                                                                                                                                                    Salvador, 07 de Dezembro de 1993.

                                                     Sávio Drummond