quarta-feira, 30 de maio de 2012

A ENFERNEIRA


Tive uma Técnica de Enfermagem, como auxiliar em um  Posto de Urgências em que trabalhei.
Muito religiosa, só andava dizendo; -“Sangue de Cristo tem poder!” 
Gostava muito de música e com um “ouvido apurado”, estava aprendendo auto - didaticamente, através de um método, a tocar flauta doce.
Depois do almoço, eu querendo descansar e a “Enferneira” tocando a flautinha: 
-Fuim, Fuem...Fuim, Fuem.
Quem já passou por “tortura” semelhante, sabe que só existe uma coisa pior que flauta mal tocada. Violino mal tocado! 
Enquanto outro colega, “guarnecia o forte”, eu procurava, buscava, necessitava descansar.
Mas a flautinha impiedosa continuava seu “berreiro” cruel:
-Fuim, Fuem...Fuim, Fuem ... 
Como ela era Evangélica, resolvi usar de argumentos Bíblicos para fazê-la parar:
- Irmã, você conhece aquela passagem do Novo Testamento que fala de Jesus no Monte das Oliveiras, e Zaqueu, o cobrador de impostos?
Mostrando que a “isca” funcionara:
- Conheço, mas em se tratando do Senhor, qual se refere?
- Madrugada, e Jesus, sentado em uma pedra, meditava.   Seus discípulos sentados no chão aguardam. O tempo passa e eles começam a adormecer. Para espantar o sono, Zaqueu, um dos seus apóstolos, começa a tocar uma flautinha, assim como você. barulho chega até Jesus, que interroga:
- Quem toca este instrumento? 
Zaqueu percebendo que estava sendo inconveniente, prosta-se ante seus pés e exclama:
- Senhor desculpa-me. Dizei uma só palavra e jogarei às chamas, este maldito instrumento.
Jesus, emocionado com a atitude do baixinho Zaqueu, levanta-o e segurando em seus ombros, diz:
- Zaqueu, filho meu, humildade como a sua, meu olho nunca viu. Mas vá tocar mal esta flauta, na “puta que te pariu”!
De outra feita, de madrugada, estava no quarto, quando a “enferneira”, entra esbaforida, gritando;
-Doutor, um homem ensanguentado, como uma faca na mão, entrou no posto gritando que quer sangue, quero sangue! Nisso o homem, acompanhando-a entra também no quarto:- Eu quero sangue, preciso de sangue!  
A “enferneira” tranca-se no banheiro, gritando; -“Sangue de Cristo tem poder. Valha-me Nosso Senhor Jesus Cristo. Pelas sete chagas de Cristo, acudam-me”! 
Calmamente procuro atender ao homem, enquanto “estudo” por onde fugir.
O homem ensanguentado, na verdade fora ferido, em uma briga de faca, e pedia que lhe dessem sangue, pois achava que precisava de uma transfusão... 
Soube há pouco que a “Enferneira”, aposentou-se, estudou e hoje toca harpa e está ganhando muito bem como professora de música.
                                                                                                           Salvador, Fevereiro de 2012.
Sávio Drummond.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A DESCANTADA


Fim de tarde de sábado. Dirije-se à barraca de praia perto de sua casa a fim de “curtir” a hora mais agradável do dia. Nela, a luz é ainda suficiente para destacar cores e contrastes sem arder na pele. Lá chegando, procura uma mesa, enquanto o vulto atarefado e grisalho do proprietário acena-lhe num cumprimento cordial. 
É uma tarde magnífica e começa a imaginar como seriam estas praias na época do descobrimento.
Com o pensamento viajando, chega a ver algumas caravelas de panos esfumados que se aproximam, quando dois vultos saídos do mar tiram-no desses devaneios. 
São duas belas jovens que vem em sua direção. A morena então é perfeita, com suas curvas mal cobertas por sumário biquíni, chama a atenção dos poucos presentes. Com ares indiferentes, próprios das mulheres acostumadas com os olhares mais ardentes, sentam-se na mesa em frente à sua. A morena de costas para ele e de frente ao mar. Sua acompanhante em posição inversa.
 A pele morena tem uma tonalidade acobreada pelo sol de muitas praias. A cabeleira cacheada chega-lhe à cintura com o peso d’água e esta, escorrendo em milhares de gotinhas, brilham ao sol poente, definindo-lhe os contornos como mágico neon. Fina penugem dourada arrepia-se ao frio do fim da tarde.
Lembra-se do ditado; “Se Deus fez algo melhor que a mulher, guardou pra Ele”. Discorda. Naquele momento têm a certeza que o Criador, num profundo gesto de amor à sua imagem e semelhança, deu-a para nós, míseros homens...
Viajando mais uma vez, não percebe que está com uma cara ridícula, com o olhar devorando o vulto moreno á sua frente, boquiaberto, sedento. 
A mímica de sua acompanhante chama-lhe a atenção. Mostra certamente à jovem que conquistara mais um admirador. Dissimuladamente, como se procurasse  qualquer coisa, em qualquer lugar, olha para os lados e finalmente, por cima do ombro, para ele.
E se não bastasse tudo aquilo a danada ainda tem os olhos claros! Subitamente formam-se em seu pensamento uns versinhos, daqueles que já vem prontos, sem direito a corrigir vírgula ou ponto. E no tampo da mesa deixa-os: 
Menina dos olhos d’água,
Olha um pouquinho pra mim.
Mata esta sede morena,
Que dói como coisa ruim. 
Das muitas mortes malvada,
De uma sempre temi.
Morrer de morte jurada,
Por teus olhos, fugindo de mim.

Escreve estes versos da forma mais acintosa possível, com letras grandes e de imprensa, na esperança de que procurem lê-los após afastar-se.  

Com esta estratégia, vai ao encontro do barraqueiro, onde encontra alguns amigos recém chegados e também impressionados com a beleza da jovem.Conta-lhes o que tinha feito, e aos poucos, um clima de expectativa toma conta do ambiente. As moças mudariam de mesa para lerem os versos? A cerveja rola solta e algumas apostas começam a serem feitas, quando, pretextando um incômodo que o Sol possa estar causando, levantam-se e procuram o abrigo da sombra do coqueiral que a esta altura derrama-se sobre a mesa que ocupou recentemente.   Mal chegando não conseguem conter a curiosidade, e, “as favas” com a discrição, inclinam-se sobre a mesa procurando  ler o que lá se encontrava. Entre taquicardia e sudorese nota que as duas conversam, certamente comentando os versos, quando de repente a morena vira-se para ele, e seu sorriso acerta-o devastador como um míssil.-Vai lá rapaz! O mais difícil você conseguiu! Cutucam-lhe às costas os amigos, que depositam nele, representante de última hora da “macheza local”, os desejos transbordantes de todos. Enche o peito e a passos decididos vai em direção a jovem. No meio do caminho quebra sua trajetória em 90° e toma o rumo de casa.Uma sonora vaia e alguns adjetivos nada lisonjeiros espocam da barraca.Cabeça baixa, mãos nos bolsos, pensa na negação de Machado de Assis ao ditado popular; “A ocasião faz o roubo. O ladrão já existia.” Logo ao chegar procura escrever os versinhos antes que os esqueça, e nem bem os termina, uma voz inquire às suas costas:  - Pra quem são estes versos? É sua filha adolescente, também morena, que pergunta curiosa. -São pra você. Tome-os! Lê-os atentamente e um tanto decepcionada, discorda.- Mas eu não tenho os olhos claros!- Licença poética filha, não tem a menor importância. 

Sávio Drummond
Maio, 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

MALUCO BELEZA


Chamava-se Raul dos Santos Seixas, e nasceu em Salvador em 28 de Junho de 1945.
Ano em que os americanos jogaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Raul nesse ano “explodia” para a vida.
-“Hoje estão comendo bacalhau, no quarto em que nasci”, referindo-se ao Restaurante Português, que foi construído na sua antiga casa.
Da geração de Caetano, Gil, Maria Betânia, Gal Costa, não aderiu ao Tropicalismo, pois fora apresentado ao Rock and Roll pelos vizinhos, filhos de americanos, que trabalhavam no Consulado Americano na Bahia. Desde cedo se apaixonou pelo Rock e aos 14 anos fundou um Fã Clube de Elvis Presley.
Aos 15 anos ganha dos pais um violão e aprende a tocar sozinho.
Em 1962, aos 17 anos, em pleno movimento da Bossa Nova, trocou sua lambreta por dois violões e um contrabaixo e monta sua 1º banda; Os Relâmpagos do Rock, mudando o nome posteriormente para Raulzito e seus Panteras. 
Suas principais influências foram Elvis Presley, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry e o Blue dos negros do sul dos Estados Unidos.
Apesar de não se alinhar com o movimento da Bossa Nova, sofreu influência de Luís Gonzaga e Repentistas.
Em 1967 a convite de Jerry Adriane o grupo mudou-se para o Rio de Janeiro e depois de apresentações e lançamentos fracassados, se desfez.
Raul volta a Salvador e em 1972, no VII Festival Internacional da Canção da Rede Globo, com a música Let me sing, let me sing, cantada por ele mesmo e Eu sou eu, Nicurí é o Diabo, defendida por Lena Rios, o país inteiro conheceu e cantou com Raul Seixas.
Os pais de Raul obrigaram-no a fazer análise por achá-lo esquisito: Brilhantina no cabelo, “pimpão” a “la Elvis Presley”, camisas coloridas com blusão de couro, não era “coisa de gente normal”.
Devido ao movimento nacionalista da Bossa Nova e Jovem Guarda,  Raul, cantando Rock, por vezes em Inglês, é visto como americanizado, entreguista e alienado. A juventude baiana, porém, o aplaudia no auditório do Cine Roma.
Raul conhece a norte- americana Edith Wisner, e apaixona-se. O pai da moça, pastor protestante, não aprova o namoro. Raul, para ganhar a confiança do futuro sogro, presta vestibular para Direito, Filosofia e Psicologia, e passa nas 3 entre os primeiros.Então diz ao pastor:
-“Viu como é fácil, ser burro”?
Em Novembro de 1970 nasce sua filha 1º filha, Simone.
Raul foi casado com Edith Wisner com quem teve Simone, Glória Vasques que lhe deu Scarlet, Tânia Mena Barreto, com quem não teve filhos, Ângela Costa (Kika) com quem teve Vivian e Lena Coutinho,  também sem filhos.
Em 1971 Raul compõe para Jerry Adriane, Renato e seus Blue Caps, Tonnie e Frankie, Trio Ternura, Diana e outros artistas da Jovem Guarda.
Em 1972, Raul se interessa por um artigo sobre Discos Voadores e resolve conhecer o autor. Era Paulo Coelho. Desse encontro surgiu a amizade e parceria.
Em 1973, lança o LP Krig-Há Bandolo!  - que quer dizer “O inimigo vem aí”, considerado seu melhor LP. Músicas como Metamorfose Ambulante, Ouro do Tolo e Mosca na Sopa, são deste LP.
Raul funda a Sociedade Alternativa, onde o maior princípio é “Faze o que tu queres, pois é tudo da Lei”.
A Sociedade Alternativa, não agradou ao Regime Militar e perseguido e preso pelo D.O.P.S. (Departamento de Ordem Política e Social) e deram-lhes, a ele e Paulo Coelho, um prazo de 24 horas para deixar o país. Partem para os estados Unidos, onde segundo Raul, passou 3 dias com John Lennon, onde ambos mostraram suas músicas.
Voltam do exílio no ano seguinte (1974) devido ao sucesso do LP Gita, disco de maior sucesso, ganhando um Disco de Ouro. Grava Novo Eon e Há Dez Mil Anos Atrás, últimos disco em parceria com Paulo Coelho. 
No início da Década de 80, Raul começou a apresentar problemas de saúde (Hepatite Alcoólica) devido ao consumo exagerado de bebidas.
No final da Década de 80 Raul, apresentou-se no Clube Recreativo Plataformense ( Subúrbio Ferroviário), e o público o vaiou e jogando objetos no palco, o expulsou, pois acharam que era um cover. Estava cambaleante e com o rosto inchado, estigma dos alcoólatras de longa duração.
Há partir de 1988, Raul começou a gravar e excursionar com Marcelo Nova, irreverente líder e vocalista da banda Camisa de Vênus. Certa feita fomos eu e meu irmão, buscar Marcelo (nosso primo) no Grande Hotel da Barra, para levá-lo para uma apresentação. Um homem vestido todo de preto, botas de couro de cano alto, chapéu de cowboy de “aba reta”, óculos escuro (era noite) entrou no carro, após nos cumprimentar. Era o Maluco Beleza!
Em 21 de Agosto de 1989, dois dias após o lançamento do disco Panela do Diabo, Raul Seixas morre de Ataque Cardíaco, em virtude de problemas com a bebida.
Raul Seixas foi um homem sensível e preocupado com o mundo e as pessoas. A realidade, por certo, era muito cruel, e fugia dela através das drogas e do álcool que o mataram aos 44 anos.

Salvador, 26 de janeiro de 2012. 
Sávio Drummond.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O HOMEM QUE ENCOLHEU


Deram-lhe o nome de Atanásio ao nascer. Gosto do pai, homem de letras e livros, que já entrado em anos, exultou com o nascimento do primogênito que trouxera alegria ao casarão em que viviam. 
 - Nome de Papa. Vai atanazar a vida de muita gente! Propalava o velho intelectual, jornalista talentoso, admirado por muitos e temido por outros mais, com passagem na política e fortes tendências esquerdistas.   
No velho casarão, herança dos avôs, arrodeado da mais fina flor da intelectualidade local, crescia
Saraus líteromusicais, comuns à sociedade elitizada, ali eram frequentes.  No salão de sólido tabuado, com pinturas de faunos com harpas e flautas, espalhado pelas paredes ouviu as primeiras notas e versos, entoados coma fluência e sentimento dos poetas e artistas que frequentavam sua casa.
No salão das refeições, com paredes igualmente pintadas com motivos florais, onde Ceres derramava os primeiros frutos e flores da primavera, a pequena família reunia-se em torno de grande mesa de madeira de lei.
Sua mãe desdobrava-se em mimos, dedicando-lhe o extremado amor que só as mães são capazes de dar, e que ao primeiro espirro, metia-o debaixo das cobertas, receosa dos pleurises e basites, tão comumente diagnosticadas pelos doutos da época.
Equilibrando-se entre a meiguice da mãe e a disciplina paterna, Atanásio crescia. Sempre entre os melhores da turma, não se permitia notas baixas, pois, a terna cobrança dos genitores, atingindo-o com um simples olhar, obrigavam-no a esforçar-se por estar entre os primeiros.
No Colégio dos  Padres, onde estudava, tirava as melhores notas, mas era visível que estas eram resultado de grande esforço, e não fruto de uma inteligência privilegiada, como julgavam os pais.  Na adolescência namorou Clara, filha também única de abastada família que morava na mesma rua. Pequenina, com pele de Jasmim, e olhos transparentes como manhãs de verão, era a imagem da fragilidade
Em seu sorriso de luz, acariciava-lhe o rosto com seus dedos longos e mãos macias, onde finas veias azuis transpareciam, enquanto falava palavras apaixonadas num timbre de águas puras que brotam do mais fundo da terra. 
Assim era Clara. Parecia a Santa do altar do colégio. Tão menina e tão segura de si. Muito mais forte que sua débil figura
Numa manhã de inverno despediu-se de Clara, que juntamente com a família mudava-se para o Sul, em busca de tratamento para a enfermidade que lhe corroia os pulmõesRecostada em uma almofada, mais transparentes que nunca, sorriu-lhe pela última vez com seus lábios ligeiramente azulados, enquanto o Citroën preto subia a ladeira. Nunca mais teve notícias dela. Não ficou triste. Apenas uma sensação de vazio no peito que nunca sentira antes e que não conseguia entender... 
Pouco depois lhe morreu o pai. Permaneceu todo tempo ao lado do caixão, olhos fixos no rosto magro de pele clara e vasta cabeleira ainda incrivelmente negra, e pensava como parecia ridículo um rosto tão viril arrodeado de flores. Por vezes sentiu ímpetos de arrancar todas aquelas flores, mas apenas ficou lá, com aquele vazio cada vez maior e que não conseguia entender...
Com a morte do genitor, muitas mudanças aconteceram no casarão.Com a modesta pensão que lhe deixou o marido, sua mãe teve que dispensar os criados, ficando apenas aquela que viera junto com seu casamento e as bagagens, e que a conhecia desde criança Os Saraus tornaram-se raros e, por fim, não mais aconteciam.
Onde andaria Godofredo com seu chapéu côco e seus poemas líricos? Marieta, versada em francês, única jornalista da época, onde andaria? Emília e seus dedos mágicos que do marfim do piano, colhia o som cristalino de Clair de Lune? Figueroa e sua flauta transversal, por onde derramaria suas dores e seus chorinhos?
Por fim trancaram a sala de música com tudo que lá havia. O piano, a harpa, o violoncelo, como em uma tumba de Faraó, para que séculos mais tarde voltassem a serem vistos por olhos curiosos, que se admirariam das formas, mas nunca sentiriam que naquelas paredes ainda vibravam os sons de Liszt, Debussy, Chopin, Garoto, que em noitadas alegres encheram de emoção o casarão e a rua inteira.
Com os colegas da faculdade conheceu o amor carnal. Helga, uma polaca de lábios fortemente tingidos de carmim, que lhe atestava a habilidade na arte da felação e preferida pela estudantada, iniciou-lhe nas artes do amor. Arte? Não para Atanásio a vida não tinha arte nem amor. Dispunha de suas companhias femininas como de veículos para suas necessidades. Afinal elas estavam lá para isso. 
Muitos colegas seus, apaixonados, embriagavam-se. Porres homéricos e serenatas históricas derramaram-se pelas ladeiras, embaladas pelas paixões daqueles corações enamorados. Atanásio apenas carregava o violão.Com muito esforço sua mãe conseguiu custear-lhe os estudos até a formatura. 
Podia faltar tudo em casa, contanto que Atanásio tornasse-se Jornalista como o pai, o “Língua Ferina”, de saudosa memória para muitos e de incontestável alívio para outros.
Após peregrinar pelas salas dos políticos, antigos amigos do marido, sua mãe consegue-lhe uma colocação; Funcionário Público! E não foi difícil ser admitido no antigo jornal em que seu pai trabalhou. Lá chegou com a expectativa do renascimento das crônicas inteligentes e mordazes que seu pai fazia, reforço indispensável ao já decadente periódico. Mas Atanásio em pouco tempo, revelou-se grande decepção. Seus artigos eram superficiais, geralmente com enfoques equivocados, sem a “verve” e o traço de gênio que o “Língua Ferina” por muito tempo imprimiu, fazendo de suas comentários sociais e políticos, matéria aguardada por admiradores e inimigos.
Demitiu-se antes que  fizesse e passou a viver apenas do seu salário de funcionário público.
Com a morte da genitora, o casarão que já era por demais amplo, tornou-se monstruoso para as necessidades de Atanásio. Passou a ocupar apenas o andar térreo, onde ficava seu quarto e as dependências da antiga criada, agora muito velha, que lhe preparava as refeições e continuava a tratar-lhe como criança, pois tinha sido sua babá. 
Como os “achaques” de sua velhice o incomodassem, acabou internando-a em um Asilo Assim foi vivendo rotineiramente Atanásio,
Pontualmente às sete e meia dava uma ajeitada na gravata e recompunha a vasta cabeleira negra, legítima herança do pai, no espelho de esplêndido móvel de jacarandá entalhado, que ficava no hall da entrada. Daqueles que possuem porta chapéus e local para guarda-chuvas.Foi neste espelho que notou os primeiros cabelos brancos e rugas no rosto.- “O tempo não esquece ninguém”, resmungou para si mesmo, ao sair para a repartição 
Certa noite, logo após chegar do trabalho, sentiu aquele vazio no peito que sentira antes e que nunca conseguira entender. Impulsionado por antigas lembranças, resolveu ir ao sótão, local que tinha sido preparado por sua mãe para suas brincadeiras. Lá ficava o quarto de brinquedos, e como o salão de música, guardava suas melhores lembranças.
A instalação elétrica desgastada, não respondeu quando acionou o interruptor. Munido de velho lampião a querosene, começou a subir os degraus que o levariam ao sótão.                                                                                                                Com o tabuado da escada a estalar sob seus pés e o corrimão de madeira trabalhada rangendo ao peso de sua mão, foi dirigindo-se lentamente ao seu passado. 
A luz mortiça e amarelada da nervosa chama pouco iluminava, porém, apesar das décadas passadas, seus passos eram seguros. Afinal, refazia o caminho que fizera tantas vezes quando criança. Finalmente a porta do quarto apareceu sob a luz oscilante, e com profundo espanto sentiu o coração disparar como nunca.  Nem quando Clara o beijou pela primeira vez, ou quando Helga o fizera gozar em seu quartinho de rapariga, na “ladeira das putas”. 
Foi com a mão molhada de suor que girou a maçaneta e entrou .De pronto percebeu os dois grandes “óculos” de vitrô colorido por onde a luz da Lua penetrava, desenhando formas matizadas e irreais nas paredes.  Dali de onde quando criança via seu pai chegar ao fim da tarde, emanava uma atração irresistível.
Foi se aproximando e de longe lhe chegou à voz grave do pai, chamando pela mulher para abrir o portão.  Através dele viu a figura delgada e enérgica, com as criadas, de sua mãe dando ordens em tarefas de jardinagem. Dali podia ver o jardim cuidadosamente tratado, com bancos revestidos de conchas e pequenas estátuas de mármore espalhadas pelo gramado, que recendia o perfume de mil flores que o embriagavam., Havia muita luz, muita cor, as vozes dos criados, o vozeirão do pai, sua mãe cantando Sertaneja. Alguém dedilhava o piano. A flauta, o oboé, o violoncelo afinavam numa mistura de acordes desconexos. Logo começaria o Sarau. 
Carros paravam próximos ao portão. O antigo móvel do hall deveria estar repleto de chapéus, casacos, guarda-chuvas. As criadas “formigavam” na cozinha preparando refrescos e salgadinhos.De repente aquela “zonzeira”. O velho vazio no peito chegava a doer, e Atanásio sentou-se para não cair. No chão tateou um volume e reconheceu a caixa de seus soldados de madeira de Exército Prussiano. Apalpando os bonequinhos, trazendo-os o mais perto do rosto para vê-los melhor, explodiu em um pranto enorme, que lhe brotava com a força de um rio incontrolável. 
Após alguns dias de ausência ao trabalho, seus colegas de repartição foram até o casarão. Não obtendo reposta, comunicaram o desaparecimento a Polícia.
A autoridade, acompanhada de um chaveiro e da velha criada localizada no Asilo, entrou na casa. Nada estava faltando, nenhum sinal de arrombamento ou violência,
No sótão, sob olhares cúmplices do Delegado, a antiga criada tomou para si a caixa dos soldadinhos de madeira.
-Era o brinquedo que ele mais gostava...  Justificou-se com os olhos úmidos.

*      *    *

Ouvi esta história de uma velhinha centenária, quando de uma visita a um Asilo, e quando lhe perguntei sobre o paradeiro de Atanásio, respondeu-me com a voz desarticulada dos desdentados.-Está vivo! - E apanhando uma caixa de madeira na cômoda, mostro-me os soldadinhos.
Neste mundo de plástico e fibras sintéticas, a visão daquelas peças, foi uma viagem ao passado.
Coloridos, feitos a mão, jamais repetiam a mesma posição. Armados com fuzil e baionetas, alguns com sabre em riste, orgulhosamente envergavam o uniforme do Exército Prussiano, aquele que no capacete tinha uma ponta de lança.Enquanto extasiado observava a riqueza de detalhes esculpidos na madeira, mostrou-me com seu indicador nodoso e anquilosado um determinado soldado.
- É ele! 
 - Ele quem?
- O Atanásio, ele não morreu. Virou soldado para comandar sua tropa. Sempre me dizia que seria soldado quando crescesse.
Falava com uma ternura indefinível, única nas pessoas que muito amaram.
Sem dar crédito ao que a velhinha falava, comecei a examinar o soldadinho que ela indicou.
Realmente era diferente dos demais. Não estava fardado. Usava paletó e gravata e era de uma perfeição só vista nas estátuas dos Grandes Mestres.
Mas seria impossível tamanha perfeição em tão pequenina peça, além do que não era de madeira como os demais. Não consegui identificar o material de que era feito. 
Mas enfim, lá estava um homem de paletó e gravata, cabelos negros esvoaçantes, com a espada apontada para frente, em passo largo, como a conclamar o batalhão para a investida derradeira.
Despedi-me da velhinha prometendo voltar na semana seguinte. Promessas dessas que fazemos sem nenhuma intenção de cumprir. Mas não consegui esquecer o soldadinho, nem a expressão da velhinha quando afirmou:
- É o Atanásio, ele não morreu...
Por diversas vezes ao longo daquela semana, procurei afastar aquelas idéias do pensamento. Afinal o que esperar de uma anciã de cem anos? Cem anos é tempo suficiente para autorizarmo-nos a dizer qualquer bobagem. 
Mas aquela velhinha, apesar de encarquilhada, de voz quase incompreensível, tinha sido lúcida e coerente durante toda a narrativa.E quem mais além dela conviveu tanto tempo com o desaparecido? E seus olhos? Nunca vi tamanho brilho. Era o olhar dos possessos ou dos sábios, que já enxergam para além desse mundo. 
Bobagem. O Atanásio devia ter dado uma de Quincas Berro D’ Água e, chateado com a “a mesmice” de sua vidinha, pois o pé no mundo... 
 Não adiantava. Os argumentos e contra argumentos chocavam-se em minha cabeça, tirando-me a paz.  Afinal, eu tive em minhas mãos a miniatura de um homem, feito de não sei o que!...  Além disso, conhecendo a história de Atanásio, comecei a formular uma estranha teoria. Não poderia o Homem sob situações limites, mudar o próprio corpo? Como explicar as chagas dos devotos que sangram na Sexta Feira da Paixão? Como algumas pessoas encanecem sob pressão tal qual Jean Val  Jan, no romance de Vitor Hugo? E a existência de lugares mágicos espalhados pelo mundo, como Machu Pichu, Stone Henge, As Pirâmides, onde estudiosos afirmam que fenômenos inacreditáveis acontecem, quando devidamente buscados? Sim, agora me parecia possível. Atanásio que sempre viveu a vida “pelas bordas”, que nunca ousou com medo de perder, que nunca se envolveu com medo de sofrer, que se sentiu pequeno diante da vida, impotente ante suas limitações, não poderia num lugar mágico (e não o são os quartos de brinquedos?) plasmar em seu corpo físico os tormentos de sua alma? E que melhor local para aliviar seus sofrimentos que a frente de seus Soldadinhos Prussianos? 
Voltei na semana seguinte ao Asilo, disposto a examinar o soldadinho sob as luzes da tecnologia. Aquele meu conflito tinha que ter um fim.
A diretora do Asilo, fingindo uma tristeza de “mascara do drama”, informou-me que a velhinha morrera na noite de da minha visita.  Perguntei a quem fora entregue os pertences.
 - Estão aqui. - Deixando escapar certo alívio, por finalmente livrar-se de um entulho. - Não achamos nenhum familiar.
Era uma sacola de plástico, com poucos e pobres pertences. Nada da caixa e dos Soldadinhos.
A velha criada levara consigo o segredo de Atanásio.                                                                                                                                                                                                                      
                                                                                                                                                                                                                                                 



                                                                                                                                                                                                    Salvador, 07 de Dezembro de 1993.

                                                     Sávio Drummond

quarta-feira, 14 de março de 2012

AS CARTAS

Como disse Erasmo Carlos em certa canção;
 “Escrevo-te estas más traçadas linhas meu  amor,
Por que a saudade veio visitar meu coração”... 

Todos nós já escrevemos e recebemos algumas cartas. Mas, só lembramos aquelas que nos davam notícia ruim. Ao contrário das recordações, que por um mecanismo de defesa, ficam apenas as boas, e as más são mandadas para o porão do inconsciente, só lembramos as cartas  que nos deram noticias ruins.
Quando o Príncipe romeno Vlade, cavaleiro da ordem do Dragão (Dracul),
ao participar das lutas nas chamadas Cruzadas (1078-1303), guerras dos europeus para libertar Jerusalém, então em poder dos mouros (árabes islâmicos), sua princesa Mina recebe uma carta, provavelmente enviada pelos inimigos, que lhe informa a morte de seu amado. Desesperada pula para a morte, afogando-se no rio que fica na base do castelo. Esse rio passou a chamar-se Rio Argesh, que em romeno quer dizer Rio Princesa. 
Alucinado Vlade Dracul, tornou-se mais sanguinário e passou a empalar vivos seus prisioneiros, assustando seus inimigos com sua ferocidade.
Vlade após a morte torna-se Drácula, personagem lendário, conhecido por alimentar-se de sangue humano.
Cartas Portuguesas enviaram as juras de amor da Sóror Mariana Alcoforado (1640 - 1723) ao seu amado o Oficial francês Noël  Bouton de Chamilly.
Uma série de cartas deixou  o genial compositor alemão Ludwig Von Beethoven (1770-1827), para as suas oito amadas. Até hoje não se sabe a qual delas denominou de “Minha Amada Imortal”. Acredita-se que foi para Theresa Malfatti, pois na época em que foi escrita, estava namorando-a.
O polonês Frédéric Chopin reuniu as cartas enviadas a sua amada Maria Vodinska, que as mandou de volta, e em 1812 fez um embrulho que intitulou Moja Bieda - Minha Desgraça.
 D. Pedro I ao receber as cartas de seu pai D. João VI que pedia que retornasse a Portugal, deu o Grito do Ipiranga . D. Pedro I tinha 22 anos, e estava, assim como toda sua comitiva, montado em mulas, que devido as suas resistências, eram utilizadas para viagens longas e não em garbosos corcéis como os quê o pintor Pedro Américo imortalizou no quadro que se encontra no museu do Ipiranga, em 7 de Setembro de 1822, tornou-se proclamador da Independência.
Segundo consta, ele e toda sua comitiva estavam de pirirí (diarréia), devido as péssimas condições de higiene das refeições feitas à beira da estrada. O filósofo tcheco Franz Kafka (1883-1924) em cartas para sua amada, deixou para a história a beleza de seu romance Cartas para Milena.
Nas cartas Napoleão Bonaparte pedia a sua 1º esposa Josefina, que não se banhasse, quando de seu regresso. Como naquela época uma carta saída da Rússia, demorava mais de 10 dias para chegar a Paris, Napoleão gostava de mulher fedorenta. Era um fetiche. 
No livro O Primo Basílio, de1878, Eça de Queiroz (1845-1900), a empregada Juliana, ao pegar uma carta de sua patroa Luísa ao seu amante Basílio, chantageia-a, porem não aproveita, pois morre no final.
A correspondência entre Rainer Maria Rilke (1875 -1926), um dos maiores poetas alemão, e um jovem, seu admirador, que lhe pergunta ao enviar-lhe suas poesias, se deveria dedicar-se a elas ou a carreira militar, como queriam seus pais.  Rainer lhe respondeu; “Na mais anódina das horas, faça essa pergunta a você mesmo. Se tiveres como resposta um rotundo não, a ela se entregue”, originou o livro Cartas a um Jovem Poeta. 
As cartas levam não somente palavras. Elas carregam emoções.
                                                                                                                                                                                                                                                                   “E, para terminar amor, assinarei, do sempre, sempre teu “...                                                                                                            

 Salvador, 12 de Outubro de 2011.                                                                                
 Sávio Drummond.    

quarta-feira, 7 de março de 2012

HISTÓRIA DE AMOR

Quando adolescente tive a oportunidade de conhecer um casarão do Século XIX que ficava na Ladeira de São Bento. Sua arquitetura, vitrais coloridos e um tabuado de madeira de lei em duas cores, testemunhavam uma época de opulência e riqueza.
Velhos jornais  amarelados,  noticiavam  a revolta da Armada (1893 - 1894), movimento dos marinheiros contra o governo do Marechal Floriano Peixoto, a revolta da Chibata, liderada pelo marinheiro negro João Candido, em 22 a 27 de Novembro de 1910, que pos fim aos castigos corporais (25 chibatadas) aos marujos infratores, e a Guerra de Canudos (1893 - 1895), em matéria escrita pelo Jornalista Euclides da Cunha.
Antigas revistas como O Careta e O Malho, traziam as caricaturas nas “charges”, que criticavam a campanha da vacina obrigatória de 1904, onde agentes de saúde invadiam as residências para vacinarem as pessoas à contra a varíola, chefiada pelo recém formado no Instituto Pasteur de Paris, Dr.Oswaldo Cruz, a mando do Presidente Rodrigues Alves. 
De todo embolorado material, guardei vários Cartões Postais que registraram a correspondência entre a jovem Marialinda, residente no casarão e um jovem que morava em Paris. A correspondência feita com postais em preto e branco, mostrava a qualidade das fotos da época, pois se fossem coloridas, certamente não teriam resistido ao tempo. Nenhum postal dela pude guardar, pois a correspondência era a que a jovem tinha recebido. 
Um deles dizia: 
-“Senhorita Marialinda.
Ontem me senti envergonhado por  ser brasileiro. 
Um rapaz que conheci em um café,  passou a tratar-me com desdém ao saber que sou brasileiro.
Os franceses são muito arrogantes. Ao perceber meu sotaque passou a falar rápido e cheio de expressões idiomáticas, tudo para dificultar meu entendimento” ... 
-“Senhorita Marialinda.
O inverno daqui está muito rigoroso. Quantas saudades do Sol e praias de Salvador. Alguns franceses, no verão tomam banho no Sena. Eu não me arrisco”...
-“Senhorita Marialinda.
Recentemente comprovei que a história que francês não gosta de banho é verdadeira. Pelo menos durante o inverno. Entrar em elevador no inverno é torturante. A mistura de odores de perfumes caros, com o de casaco de peles e suor, é nauseante”... 
- “Marialinda querida.
Nos Salões Parisienses só se dança o Maxixe. Ritmo brasileiro que a polícia proibiu nos bailes públicos e nos entrudos, aí da terrinha.
Moça de família não pode dançar o Maxixe. Aqui em Paris, um baiano chamado Duque, está ganhando rios de dinheiro ao dançar, a mistura do ritmo sensual africano Landu, com a Polca. Copiei do jornal a descrição do Jornalista João Chagas, feita em 1897 sobre o Maxixe:
-“Os pares enlaçam-se pelas pernas e pelos braços, apóiam-se quanto possível pelas testas num gracioso movimento de marrar, e assim unidos, dão a um tempo três passos para diante e três passos para trás, com lentidão. Súbito circunvoluteiam, e vão avançando e retrocedendo, como a quererem possuir-se”. -“Senhorita  Marialinda.
Na semana passada, em 19 de Outubro de 1901, os jornais noticiaram que um mineirinho baixinho e  bigodudo, chamado Alberto Santos Dumont, voou em um dirigível, deu uma volta na Torre Eiffel  e ganhou  o Prêmio Deutsche e uma aposta que tinha feito”. .. 
-“Senhorita Marialinda.
Senti-me orgulhoso em ser brasileiro.
Ontem, em 23 de Outubro de 1906, o mesmo mineirinho que vem encantando a todos, realizou o sonho de Ícaro, e em uma engenhoca de bambu e seda Chinesa, levantou vôo do campo de Bagatelle.
Conseguimos imitar os pássaros”...
-“Senhorita Marialinda. 
Recebi sua carta dizendo do seu casamento no mês que vem.
A distância e sua família venceram, mas quero que saibas que nenhum homem lhe amará tanto quanto eu te amei.
Por favor seja feliz!”

Algumas letras neste postal, estavam manchadas. Talvez, lágrimas desbotaram a tinta...                 


Salvador, 13 de Fevereiro de 2012.
Sávio Drummond.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A PASSEATA

Havia alguma coisa no ar além de Alegria-Alegria, ponteio ou And I Love Her.
Eram todos rebeldes com causas, envolvidos por uma aura que os identificava com os santos missionários ao abraçarem ideais de luta e sacrifício. À ditadura militar, presos políticos, rumores de guerrilha, juntavam-se clamores irresistíveis como um elemento da natureza, que os transformavam em pioneiros de um mundo novo, cheio de liberdade no relacionar-se, no jeito de ser e vestir, para desespero dos pais.
Eram dez horas da manhã e os secundaristas em peso reuniam-se às portas do Colégio da Bahia.
A invasão da Residência Universitária dias antes, e do próprio colégio na noite anterior, tinham sido “a gota d’água”. Os líderes estudantis discursavam em cima de palanques improvisados e estudantes vindos de todos os cantos da cidade reuniam-se ali, como se todos os caminhos pra lá se dirigissem.
Em pouco tempo a avenida estava coalhada de uniformes azul e branco e faixas de protesto.
Compacta, a multidão deslocava-se em direção à Piedade, e ele, que não era hippie nem revolucionário, estava lá. Mais um entre milhares, único perto dela. Que lhe importava a guerra do Vietnã, as botas dos generais, os colegas desaparecidos, se naquele momento ela estava tão
próxima?  Se o cheiro dos seus cabelos e do suor do seu corpo agitado era o único perfume que sentia, e se sua voz, já rouca e esganiçada era a única que conseguia ouvir e parecia-lhe o último som que ouviria por toda a vida? Seguiria-a até o inferno se preciso fosse! 
De repente a empolgação foi substituída pelo medo. Nas extremidades da avenida, os uniformes azuis e brancos confundiam-se com o cáqui e o verde-oliva da Polícia e do Exército.
Os estudantes apanhados na armadilha tentavam furar o cerco numa agitação desenfreada, como de uma cobra em estertores por ter a cabeça esmagada. Alguns fugiam pelas ruas laterais, para caírem direto nos camburões da Polícia e do Exército que estrategicamente fechavam todas as saídas.
Foi aí que ela abraçou-se a ele e reclinou a cabeça no seu ombro.
Sentiu-a trêmula e suas lágrimas molharam seu peito, onde um coração valente e indomável despertou. Por ela derrubaria todos os soldados, esmagaria todos os blindados e hastearia no mais alto dos prédios, sua bandeira. Nela não haveria dizeres patrióticos ou palavras de ordem. Ler-se-ia apenas TE AMO, como poderia alucinadamente amar um coração de dezessete anos. E aí, talvez, um fotógrafo amador registrasse seu gesto, como o da bandeira americana em Iwo Jima.
Gritos pavorosos, e o estalar de ferraduras nos paralelepípedos, trouxeram-no bruscamente à realidade, e ela pareceu-lhe sólida como um muro. Aos galopes, alguns policiais aproximavam-se rapidamente como se, em meio aquele alvoroço, tivessem sido os escolhidos.Talvez por estarem parados e abraçados, enquanto “o mundo vinha abaixo” ao redor. 
Quando iam ser atingidos, lembrou-se (Deus ajuda as crianças, os bêbados e os apaixonados), da alfaiataria de um amigo da família que ficava naquele trecho e que pelos fundos dava acesso às ruas de trás. Num ímpeto arrastou-a colada ao corpo e invadiram a loja, derrubando os manequins da entrada. 
Logo chegaram à rua dos fundos, onde o movimento era menor, mas ainda havia policiais montados. Um velho ditado diz que “Cavalo não desce escada”, e por certo, não desceriam as ladeiras de “cabeças de negro” da Bahia. 
Dito e feito. Ao chegarem ao meio da ladeira, olharam para trás e viram os cavaleiros assustados, que não conseguiam manter o controle de suas montarias, no alto do declive.
Continuaram calados e colados até a casa dela. Lá, choraram como crianças e amaram-se como adultos.
Seguramente havia alguma coisa no ar, além do som de Caetano, Edu Lobo e Beatles, naqueles tempos. 

Salvador,  26 de Junho de 1995
Sávio Drummond